António Ferreira: A Castro

Marcas de Fatalismo e Pessimismo na Castro

A associação amor-morte é um tema insistente na Literatura Portuguesa, que vai encontrar a sua mais alta representação na tragédia Castro de António Ferreira:

Características trágicas da Castro

Análise da Castro

Acto I

Cena I:

Prólogo da peça: o primeiro acto faz a apresentação do motivo impulsionador da acção da tragédia: o amor de Pedro e Inês, quando esta transborda de alegria pela segurança do Amor de Pedro e por considerar que todos os perigos que a ameaçavam se extinguiram.

Caracterização de Inês: uma alegria extrema, efusiva, que esboça desde logo uma figura trágica acentuada pelas palavras da Ama "Que novas festas, novos cantos pedes", "novos extremos vejo" e "Nas palavras prazer, água nos olhos./Quem te faz juntamente leda e triste?" – a Ama remete-nos para mágoas passadas que não devem ser tão rapidamente esquecidas.

Os primeiros versos traduzem uma visão diurna cheia de colorido, um hino à alegria, onde as sensações visuais, tácteis e olfactivas completam um quadro que convida à felicidade; incita as "alegres donzelas" a colher "cheirosas flores", a coroar "as douradas cabeças" com "lírios e rosas", flores que simbolizam respectivamente a pureza e perfeição e a juventude, a pureza, o amor.

Perante o convite da ama à confidência "Abre-me já, Senhora, essa alma tua/O mal se abranda, o bem cantando-o cresce" Inês inicia um longo monólogo em que:

Cena II:

Nesta cena Pedro é o elemento central acentuando o valor das duas entidades a que se dirige num crescendo de importância: primeiro pede a Deus o fortalecimento da vontade, o abrandamento da ira popular e da fúria paterna, lembrando a forma feliz como Afonso III resolveu caso semelhante, casando com D. Beatriz de Castela, estando a sua primeira esposa ainda viva. Confessa preferir a morte a viver sem Inês opondo o Amor à Razão e manifestando-se a favor da força do amor.

O Coro manifesta-se pela primeira vez e coloca o problema sob o prisma da Razão. São palavras-chave Razão/Vontade/Exemplo, acentuando lúcida e racionalmente que um mal não desculpa outro e que é dever de um rei orientar-se pelo exemplo e pela vontade colectiva.

Assim a razão cega, apresentada por Pedro, cede lugar a um raciocínio moralmente válido e universal.

Cena III:

Entrada em cena de uma personagem de valor analógico equivalente ao da Ama, o Secretário, amigo e conselheiro, que aprecia o problema conflitual de D. Pedro – só um mundo às avessas poderia juntar Amor e Razão, fazendo-os coexistir sem se prejudicarem.

Declara que cumprirá com o seu dever para com o Príncipe. Começa a notar-se no Secretário um aumento da tensão trágica na apresentação do conflito, através das contradições interiores manifestadas, ora em relação ao amor pelo seu Príncipe, ora atento à necessidade de o alertar para o seu dever.

O Secretário desenvolve uma argumentação orientada por diferentes vectores:

O Conselheiro não consegue demover Pedro, que apenas se considera sujeito ao julgamento de Deus.

Cena IV:

Nesta cena o coro é seguido por um anti-coro: um enumera os benefícios do amor e outro os malefícios.

Acto II

As razões do amor vão opor-se às razões de estado, o individuo ao colectivo.

Figura central do conflito: o Rei (personagem modelada).

Figurantes reduzidos a dois: os Conselheiros (Personagens-Tipo) – sem características psicológicas individualizantes, assumem uma perspectiva colectiva representativa do arquétipo mental da época.

Confluem dois pontos de vista encarnados pelas duas personagens e que se opõem simetricamente: o ceptro e o gládio que, aparentemente antitéticos, funcionam como um todo. No texto o ceptro aparece ambivalente. É rico, formoso, belo, e quem o usa são os reis mas também: "não é resplandor… do ouro", "não é fortaleza… é terra pesada", "não fazê-lo é usar mal do ceptro", "bem fazê-lo é não ter vida segura".

Assim o rei que usa o ceptro não tem saída possível para fugir às imposições do gládio.

Antropocentrismo: o Rei é também Homem enquanto que para os Conselheiros os actos justificam os meios.

O Coro I exprime as dificuldades e os trabalhos do Rei, a vida insegura e inquieta que os altos cargos lhe impõem. Acentua ideias que já tinham sido problematizadas por Afonso IV, que ultrapassam o simples tópico Renascentista.

O simples lavrador é mais feliz que um príncipe.

O homem comum é mais livre que um rei.

Apesar de rei é um homem que sofre e merece a compaixão do espectador.

Sobre os reis pende sempre a ameaça justiceira da "Fortuna" enquanto os outros homens dela são libertos, por pertencerem à mediania.

Tentando interferir ainda neste conflito individual, o coro, falando num EU, escolhe imagens metafóricas que correspondem a estados de experiência vivencial: "Nos altos muros soam mais os ventos", "As mais crescidas árvores derribam"…

Podemos concluir que o Coro 1 perfilha as ideias do Rei, atende ao seu sofrimento, compreende a sua infelicidade e problematiza o seu dilema. É uma espécie de alter-ego de Afonso IV.

O Coro II pronuncia uma extensa argumentação que tem por finalidade conduzir o espectador ao sentimento de inevitabilidade que recai sobre as vítimas e, sobretudo, sobre D. Afonso IV, resultado de uma expiação, para a qual contribuíram dois pecados por ele cometidos:

São lembradas as ofensas cruéis do rei contra seu pai, D. Dinis, e associada a "santa rainha" (Santa Isabel) que procurou apagar, com a sua santidade e piedade, o fogo aceso entre Pai/Filho.

Acto III

O sonho de Inês, antecipador da sua futura morte, é um elemento preponderantemente clássico, utilizado pelo dramaturgo para colocar a personagem central perante um tema caro aos homens do Renascimento.

No sonho ela encontra-se só, num bosque escuro com feras (locus horrendus), grita por Pedro mas ele não a ouve e ela desespera de saudades dele.

Perante tal sonho Inês confessa à ama as suas preocupações: é culpada por ser uma Castro, lamenta a ausência do amado, sente-o esquecer-se dela pressentindo "algum mal".

A ama incute-lhe serenidade e segurança recordando-lhe o cenário idílico que ela mesma esboçara no Acto I: as águas claras do rio que corre para onde está Pedro, a música doce dos passarinhos nas árvores e não temer a fortuna.

O Coro II antecipa o futuro trágico e aconselha Inês a fugir com os filhos enquanto ela se interroga onde está o seu Senhor para a defender do "duro ferro" e conclui finalmente que é ela quem vai morrer. Invoca as moças de Coimbra e os homens, em geral, para que a socorram.

O amor deles tenderá para a união eterna quando o Infante a coroar e a depositar num túmulo de pedra.

Acto IV

Defesa de Inês:

Inês pede ao Rei:

Neste acto vamos encontrar dois pólos opostos de actuação, combatendo entre si, cada qual escudado nas suas razões. De um lado os Conselheiros, guardiães da razão e da moral de estado, e do outro Inês pugnando pela vitória do amor e da vida. Entre eles Afonso IV comovido ao ver chegar Inês e que é a verdadeira figura trágica pela sua humanidade em choque com o dever.

Inês argumenta: é mãe dos filhos de Pedro; é mulher indefesa, só, frágil; é vítima do amor. Apela à sua consciência de rei, de avô, de pai e de homem.

Em resposta o rei responde, pela boca dos conselheiros, remetendo a culpa de tudo para os fados e para a sua escravidão como Homem de Estado.

Intensifica-se a argumentação dos conselheiros obedecendo sempre ao lema "ofensas públicas querem rigor, não perdão".

Acto V

Retrato físico e psicológico de Inês (1.ª fala do Infante): claros olhos… luz… sol… estrela… mais clara, mais formosa, mais luzente/Que Vénus quando mais clara se mostra" (vv.5 a 9).

Estado de espírito do Infante antes do conhecimento da morte de Inês: Saudoso, pensativo.

Retrato físico de Inês viva/morta - contraste (última fala do Infante) vv.126 a 136:

Atitude e comportamento do Infante após o conhecimento da morte de Inês (pp.21 e 22): dor (vv.75 a 85), raiva (vv.90 a 100), ódio e desespero (vv.100 a 115), vingança contra os algozes (vv.153 a 158), vingança contra o rei (vv.160 a 170), determinação de vingar a morte de Inês coroando-a rainha (vv.173 a 178).

A Castro: Acção trágica

Hybris
(o desafio)
Agón
(o conflito)
Pathos
(o sofrimento)
Katastrophé
(a catástrofe)
Katársis
(a catarse)
D. Inês de Castro contra as leis e os direitos sociais da corte

profanação de um sacramento (casamento)

desafia o destino ao viver e ter filhos (ilegítimos) com D. Pedro
não tem conflito de consciência

não entra em conflito com as outras personagens

a sua Hybris desencadeia e agudiza o conflito de outras personagens
sofrimento causado pelo castigo imposto pelo rei:
• perda dos filhos
• perda do príncipe
causada pela morte salvação pela purificação - coroada como rainha
D. Pedro contra as leis e os direitos sociais da corte:

• profanação de um sacramento (casamento)
• bigamia
• desafia o destino ao viver e ter filhos (ilegítimos) com Dona Inês
• entra em conflito com o rei
não tem conflito de consciência

não entra em conflito com as outras personagens

a sua Hybris desencadeia e agudiza o conflito de outras personagens

entra em conflito com o seu pai
sofrimento causado pelo castigo imposto pelo rei:

• perda de Dona Inês
• sofre por não poder travar a marcha do destino
morte psicológica:

• separação de D. Inês;
• não pode resistir ao desgosto
salvação pelo sofrimento
D. Afonso IV revolta contra a situação amorosa do filho (D. Pedro) interior, de consciência

entra em conflito com D. Inês e D. Pedro
sofre hesitando entre o perdão e a condenação de D. Inês não tem não tem