António Ferreira: A Castro
Marcas de Fatalismo e Pessimismo na Castro
A associação amor-morte é um tema insistente na Literatura Portuguesa, que vai encontrar a sua mais alta representação na tragédia Castro de António Ferreira:
- O antagonismo entre a paixão de D. Inês e D. Pedro e os altos interesses do estado, representados pelos Conselheiros do Rei;
- D. Inês: a revelação de uma alma apaixonada e segura do seu príncipe, embora atormentada por angustiosos receios, por previsões (sonhos) e avisos;
- D. Pedro: a obstinação em pospor os interesses do estado aos do seu coração face a atitudes de moderação aconselhadas;
- D. Afonso IV: a luta psicológica entre os imperativos da razão e os chamamentos do coração, exacerbados por D. Inês, no discurso em prol da sua defesa;
- Conselheiros: a representação do veredicto do destino, pelo desafio lançado a leis de ordem superior - origem da fatalidade que vai imperar sobre Inês e Pedro e determinar a morte de um e a dor irreparável de outro.
Características trágicas da Castro
- Número de personagens reduzido: oito (sem contar o coro e os filhos de Inês que não falam). Aparecem sempre em pequeno número em cena.
- Todas as personagens são de classe elevada: Rei, Príncipe, dama nobre, nobres cavaleiros. A Ama não é uma criada mas uma nobre dama que educara Inês.
- A peça está escrita em verso.
- A acção é uma. A personagem de Inês confere-lhe essa unidade, com a sua presença nos actos I, III e V. Quando, contudo, não está em cena, todas as personagens pensam nela e o assunto é ela. Toda a peça está centrada na sorte de Inês: a sua felicidade possível, o seu julgamento, a sua condenação, a sua execução.
- A acção é simples, sem peripécias, isto é, não se passa nada estranho ao drama e ao seu desenlace.
- Unidade de tempo: o espaço de 24 horas é respeitado, embora o autor não dê indicação precisa do tempo. A primeira cena pode desenrolar-se de tarde, o Acto II perto da noite. Inês sonha durante a noite, é julgada e executada no dia seguinte. O Infante é informado pouco depois pelo mensageiro.
- Espaço: todos os actos se passam no mesmo lugar geral, que será Coimbra e os seus arredores imediatos. Os actos I, III e IV podem ser situados no Palácio de Santa Clara. O Conselho do Acto II, fê-lo António Ferreira desenrolar na Alcáçova de Coimbra. Quanto ao acto V a existência de um mensageiro implica distância, mas o encontro com o Infante, como provam as interpelações ao Mondego, aos "Montes de Coimbra" é na própria cidade.
Análise da Castro
Acto I
Cena I:
Prólogo da peça: o primeiro acto faz a apresentação do motivo impulsionador da acção da tragédia: o amor de Pedro e Inês, quando esta transborda de alegria pela segurança do Amor de Pedro e por considerar que todos os perigos que a ameaçavam se extinguiram.
Caracterização de Inês: uma alegria extrema, efusiva, que esboça desde logo uma figura trágica acentuada pelas palavras da Ama "Que novas festas, novos cantos pedes", "novos extremos vejo" e "Nas palavras prazer, água nos olhos./Quem te faz juntamente leda e triste?" – a Ama remete-nos para mágoas passadas que não devem ser tão rapidamente esquecidas.
Os primeiros versos traduzem uma visão diurna cheia de colorido, um hino à alegria, onde as sensações visuais, tácteis e olfactivas completam um quadro que convida à felicidade; incita as "alegres donzelas" a colher "cheirosas flores", a coroar "as douradas cabeças" com "lírios e rosas", flores que simbolizam respectivamente a pureza e perfeição e a juventude, a pureza, o amor.
Perante o convite da ama à confidência "Abre-me já, Senhora, essa alma tua/O mal se abranda, o bem cantando-o cresce" Inês inicia um longo monólogo em que:
- Recorda os gloriosos antepassados de Pedro, a grandeza da Casa Real, e o futuro que fará do Infante seu legítimo rei;
- Recorda o momento em que conheceu Pedro e como, por amor dela, este rejeitou altos desígnios, até ser constrangido à aceitação do casamento com Constança;
- Fala da fidelidade amorosa de Pedro, que sentia o seu casamento como uma injusta prisão e se refugiava na solidão e na tristeza, os murmúrios do povo;
- Refere um novo impedimento à sua união com Pedro, o ter sido madrinha do primeiro filho dele e a morte de Constança no que parecia um sinal dos céus para a realização total do seu amor já abençoado com filhos;
- Confidencia à Ama os temores que também relatara a Pedro, o medo traduz a lucidez da personagem quanto ao seu provável destino trágico: consciência do erro;
- Enuncia os obstáculos possíveis seguidos da sua eliminação: fortuna, homens, estrela = génio, fados.
- O Infante sossegara-a jurando que nunca nada o separaria dela e a ama entende o seu estado de espírito e fá-la compreender que sempre a auxiliará.
Cena II:
Nesta cena Pedro é o elemento central acentuando o valor das duas entidades a que se dirige num crescendo de importância: primeiro pede a Deus o fortalecimento da vontade, o abrandamento da ira popular e da fúria paterna, lembrando a forma feliz como Afonso III resolveu caso semelhante, casando com D. Beatriz de Castela, estando a sua primeira esposa ainda viva. Confessa preferir a morte a viver sem Inês opondo o Amor à Razão e manifestando-se a favor da força do amor.
O Coro manifesta-se pela primeira vez e coloca o problema sob o prisma da Razão. São palavras-chave Razão/Vontade/Exemplo, acentuando lúcida e racionalmente que um mal não desculpa outro e que é dever de um rei orientar-se pelo exemplo e pela vontade colectiva.
Assim a razão cega, apresentada por Pedro, cede lugar a um raciocínio moralmente válido e universal.
Cena III:
Entrada em cena de uma personagem de valor analógico equivalente ao da Ama, o Secretário, amigo e conselheiro, que aprecia o problema conflitual de D. Pedro – só um mundo às avessas poderia juntar Amor e Razão, fazendo-os coexistir sem se prejudicarem.
Declara que cumprirá com o seu dever para com o Príncipe. Começa a notar-se no Secretário um aumento da tensão trágica na apresentação do conflito, através das contradições interiores manifestadas, ora em relação ao amor pelo seu Príncipe, ora atento à necessidade de o alertar para o seu dever.
O Secretário desenvolve uma argumentação orientada por diferentes vectores:
- Deveres de lealdade para com o seu Príncipe e Amigo: não alertar o rei é "vil fraqueza"; o verdadeiro amigo é aquele que corta "as más cadeias" da prisão àquele que está preso; o seu papel é um dever moral de que não abdica, preferindo a morte "em desespero de causa perdida". "Amor e lealdade esta ousadia me dão, dá-me a razão".
- Como Conselheiro: retrata a figura real que se escurece, a todos mergulha na treva do mau exemplo. O espírito há-de ser puro como ouro limpo; a Razão pode não seguir-se, mas não pode negar-se; o Infante deve obediência ao Pai e deve deixar bons exemplos.
O Conselheiro não consegue demover Pedro, que apenas se considera sujeito ao julgamento de Deus.
Cena IV:
Nesta cena o coro é seguido por um anti-coro: um enumera os benefícios do amor e outro os malefícios.
- Coro 1: Amor é: Sol, Luz, vida, céu, Canto, Vénus, Lágrimas – Água, Setas Douradas, Árvores, Flores, Ramos, Vale Ameno, Rio, Paz – brandura, rogos brandos, Fogo – chamas.
- Coro 2: peçonha, tristeza, atordoamento, morte, alma dormente, vil fraqueza, (Fénix) cinza, fogo desfeito, cego, cruel, raio furioso, tiro, sangue, lágrimas, fria neve, Apolo = Marte estrago, dano, nascido do ócio, cego tirano, fingido = engano = cruel desejo.
Acto II
As razões do amor vão opor-se às razões de estado, o individuo ao colectivo.
Figura central do conflito: o Rei (personagem modelada).
Figurantes reduzidos a dois: os Conselheiros (Personagens-Tipo) – sem características psicológicas individualizantes, assumem uma perspectiva colectiva representativa do arquétipo mental da época.
Confluem dois pontos de vista encarnados pelas duas personagens e que se opõem simetricamente: o ceptro e o gládio que, aparentemente antitéticos, funcionam como um todo. No texto o ceptro aparece ambivalente. É rico, formoso, belo, e quem o usa são os reis mas também: "não é resplandor… do ouro", "não é fortaleza… é terra pesada", "não fazê-lo é usar mal do ceptro", "bem fazê-lo é não ter vida segura".
Assim o rei que usa o ceptro não tem saída possível para fugir às imposições do gládio.
Antropocentrismo: o Rei é também Homem enquanto que para os Conselheiros os actos justificam os meios.
O Coro I exprime as dificuldades e os trabalhos do Rei, a vida insegura e inquieta que os altos cargos lhe impõem. Acentua ideias que já tinham sido problematizadas por Afonso IV, que ultrapassam o simples tópico Renascentista.
O simples lavrador é mais feliz que um príncipe.
O homem comum é mais livre que um rei.
Apesar de rei é um homem que sofre e merece a compaixão do espectador.
Sobre os reis pende sempre a ameaça justiceira da "Fortuna" enquanto os outros homens dela são libertos, por pertencerem à mediania.
Tentando interferir ainda neste conflito individual, o coro, falando num EU, escolhe imagens metafóricas que correspondem a estados de experiência vivencial: "Nos altos muros soam mais os ventos", "As mais crescidas árvores derribam"…
Podemos concluir que o Coro 1 perfilha as ideias do Rei, atende ao seu sofrimento, compreende a sua infelicidade e problematiza o seu dilema. É uma espécie de alter-ego de Afonso IV.
O Coro II pronuncia uma extensa argumentação que tem por finalidade conduzir o espectador ao sentimento de inevitabilidade que recai sobre as vítimas e, sobretudo, sobre D. Afonso IV, resultado de uma expiação, para a qual contribuíram dois pecados por ele cometidos:
- O pecado da desobediência "pecado torpe e feio" perante Deus e os homens;
- Quebra das leis da Natureza, no que respeita à justiça e à lei.
São lembradas as ofensas cruéis do rei contra seu pai, D. Dinis, e associada a "santa rainha" (Santa Isabel) que procurou apagar, com a sua santidade e piedade, o fogo aceso entre Pai/Filho.
Acto III
O sonho de Inês, antecipador da sua futura morte, é um elemento preponderantemente clássico, utilizado pelo dramaturgo para colocar a personagem central perante um tema caro aos homens do Renascimento.
No sonho ela encontra-se só, num bosque escuro com feras (locus horrendus), grita por Pedro mas ele não a ouve e ela desespera de saudades dele.
Perante tal sonho Inês confessa à ama as suas preocupações: é culpada por ser uma Castro, lamenta a ausência do amado, sente-o esquecer-se dela pressentindo "algum mal".
A ama incute-lhe serenidade e segurança recordando-lhe o cenário idílico que ela mesma esboçara no Acto I: as águas claras do rio que corre para onde está Pedro, a música doce dos passarinhos nas árvores e não temer a fortuna.
O Coro II antecipa o futuro trágico e aconselha Inês a fugir com os filhos enquanto ela se interroga onde está o seu Senhor para a defender do "duro ferro" e conclui finalmente que é ela quem vai morrer. Invoca as moças de Coimbra e os homens, em geral, para que a socorram.
- Coro I: Reflecte sobre a ilusão, admoesta o par amoroso, incita a "mocidade cega", aconselha a poupar o presente em bens duradouros, alude à brevidade da vida, afirma que até a virtude vence o tempo;
- Coro II: Continua em forma de admoestação a proclamar que o amor traz consigo a morte e que a alma fica incapacitada de ver os males e perigos porque perde a "luz da razão". Acusa o Infante de ser "cego" e duro por ter cerrado os olhos e ouvidos aos avisos. Anuncia a morte de Inês.
O amor deles tenderá para a união eterna quando o Infante a coroar e a depositar num túmulo de pedra.
Acto IV
Defesa de Inês:
Inês pede ao Rei:
- Que abrande a sua fúria;
- Que considere um possível arrependimento futuro;
- Que pondere na clemência, na justiça e na piedade;
- Que poupe os netos da visão da sua morte e do seu sangue;
- Que lhe perdoe.
Neste acto vamos encontrar dois pólos opostos de actuação, combatendo entre si, cada qual escudado nas suas razões. De um lado os Conselheiros, guardiães da razão e da moral de estado, e do outro Inês pugnando pela vitória do amor e da vida. Entre eles Afonso IV comovido ao ver chegar Inês e que é a verdadeira figura trágica pela sua humanidade em choque com o dever.
Inês argumenta: é mãe dos filhos de Pedro; é mulher indefesa, só, frágil; é vítima do amor. Apela à sua consciência de rei, de avô, de pai e de homem.
Em resposta o rei responde, pela boca dos conselheiros, remetendo a culpa de tudo para os fados e para a sua escravidão como Homem de Estado.
Intensifica-se a argumentação dos conselheiros obedecendo sempre ao lema "ofensas públicas querem rigor, não perdão".
Acto V
Retrato físico e psicológico de Inês (1.ª fala do Infante): claros olhos… luz… sol… estrela… mais clara, mais formosa, mais luzente/Que Vénus quando mais clara se mostra" (vv.5 a 9).
Estado de espírito do Infante antes do conhecimento da morte de Inês: Saudoso, pensativo.
Retrato físico de Inês viva/morta - contraste (última fala do Infante) vv.126 a 136:
- Inês viva:
- olhos claros;
- cabelos de oiro;
- mãos alvas e formosas;
- peitos brancos;
- corpo vivo e formoso.
- Inês morta:
- olhos cerrados para sempre;
- cabelos de sangue;
- mãos frias e tão negras;
- peitos trespassados;
- corpo morto e frio.
Atitude e comportamento do Infante após o conhecimento da morte de Inês (pp.21 e 22): dor (vv.75 a 85), raiva (vv.90 a 100), ódio e desespero (vv.100 a 115), vingança contra os algozes (vv.153 a 158), vingança contra o rei (vv.160 a 170), determinação de vingar a morte de Inês coroando-a rainha (vv.173 a 178).
A Castro: Acção trágica
| Hybris (o desafio) |
Agón (o conflito) |
Pathos (o sofrimento) |
Katastrophé (a catástrofe) |
Katársis (a catarse) |
|
| D. Inês de Castro | contra as leis e os direitos sociais da corte profanação de um sacramento (casamento) desafia o destino ao viver e ter filhos (ilegítimos) com D. Pedro |
não tem conflito de consciência não entra em conflito com as outras personagens a sua Hybris desencadeia e agudiza o conflito de outras personagens |
sofrimento causado pelo castigo imposto pelo rei: • perda dos filhos • perda do príncipe |
causada pela morte | salvação pela purificação - coroada como rainha |
| D. Pedro | contra as leis e os direitos sociais da corte: • profanação de um sacramento (casamento) • bigamia • desafia o destino ao viver e ter filhos (ilegítimos) com Dona Inês • entra em conflito com o rei |
não tem conflito de consciência não entra em conflito com as outras personagens a sua Hybris desencadeia e agudiza o conflito de outras personagens entra em conflito com o seu pai |
sofrimento causado pelo castigo imposto pelo rei: • perda de Dona Inês • sofre por não poder travar a marcha do destino |
morte psicológica: • separação de D. Inês; • não pode resistir ao desgosto |
salvação pelo sofrimento |
| D. Afonso IV | revolta contra a situação amorosa do filho (D. Pedro) | interior, de consciência entra em conflito com D. Inês e D. Pedro |
sofre hesitando entre o perdão e a condenação de D. Inês | não tem | não tem |



