Poesia Barroca
À fragilidade da vida humana
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Esse baixel nas praias derrotado Foi nas ondas Narciso presumido Esse farol nos céus escurecido Foi do monte libré, gala do prado. Esse nácar em cinzas desatado Foi vistoso pavão de Abril florido; Esse Estio em Vesúvios encendido Foi Zéfiro suave, em doce agrado. Se a nau, o Sol, a rosa, a primavera Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel Sentem nos auges de um alento vago, Olha, cego mortal, e considera Que és rosa, Primavera, Sol baixel, para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago. Francisco de Vasconcelos, Fénix III |
Tema: todo o ser humano é mortal.
Sinónimos e para-sinónimos: baixel - nau; farol - sol; nácar - rosa; estio - Primavera.
Antónimos: baixel/estrago; sol/eclipse; rosa/cinza; Primavera/ardor, incendio.
As oposições justificam-se pelos adjectivos que introduzem um sentido negativo: derrotado, escurecido, desatado, encendido. Construções simétricas.
O baixel, comparado a Narciso, nau muito bela, foi destruído nas praias; o farol, outrora a beleza do monte e do prado, deixou de dar luz; o nácar, maravilha nas cores, é cinza; o Estio, suave outrora, é agora ardente. Transformação negativa.
As quadras constituem um bloco formado por duas séries de elementos que se dispõem em frases de construção paralela, ocupando dois versos cada uma; os tercetos formam outro bloco porque se iniciam pela conjunção condicional "Se" que indica a condição a que estão sujeitas as duas orações subordinantes, coordenadas entre si: Olha, cego morta, e considera. A oração subordinada "que és…" é complemento directo das subordinantes.
O pessimismo político, social e religioso, a repressão da Inquisição, a sensação de pequenez do ser humano face à qrandeza do Universo são evidentes neste poema.
A F. favorecendo com a boca e desprezando com os olhos
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Quando o sol nasce e a sombra principia, A doce abelha, a borboleta airosa procura luz ardente e fresca rosa Que faz a terra céu e a noite, dia. Mas quando à flor se entrega, à luz se fia, Uma fica infeliz, outra ditosa; Pois vive a abelha e morre a mariposa Na favorável rosa e chama ímpia. Fílis, abelha sou, sou borboleta, Que com afecto igual, com igual sorte, Busco em vós melhor luz, flor mais selecta; Mas quando a flor é branda, a chama é forte, Néctar acho na flor, na luz cometa, A boca me dá vida, os olhos morte. Jerónimo Baía, Fénix III |
Cada elemento é caracterizado pelo mesmo número de palavras (adjectivos, nomes e verbos), dando a impressão de um puzzle.
Há uma antítese matriz: vida/morte, à volta da qual gravitam outras antíteses.
O quiasmo, existente nos versos 2, 3, 8, 11, 13, além de um efeito lúdico, serve para sugerir os diversos movimentos dos dois elementos e, por arrastamento, a relação entre o sujeito poético e Fílis.
As hipérboles engrandecem, quer a rosa e a luz, quer a abelha e a borboleta. Além disso, traduzem a valorização de Fílis e a relação do poeta com essa entidade.
Trata-se de um texto cultista no qual o escritor joga com as palavras, com as construções e com as imagens. A mensagem é banal e a roupagem exagerada. Distrai da vida.
- O destino da abelha e da borboleta ao longo do poema:
- Abelha: quando o sol nasce a doce abelha procura a fresca rosa que faz a terra céu. Mas quando à flor se entrega fica ditosa pois vive na favorável rosa.
- Borboleta: quando a sombra principia a borboleta airosa procura a luz ardente que faz a noite dia. Mas quando à luz se fia fica infeliz pois morre na chama ímpia.
- Relação antitética: o tipo de relação que se estabelece entre elas.
- Antítese: a figura de estilo que materializa essa relação.
- A relação entre o poeta, a borboleta e a abelha; o poeta também procura em Fílis como a abelha a flor mais selecta (a boca) e como a borboleta a melhor luz (os olhos). Mas como a elas também a boca lhe dá vida e os olhos morte.
- A ligação do título com o universo semântico do soneto: o poema é dedicado à amada do poeta - Fílis - que lhe fala brandamente mas em cujos olhos ele lê o desprezo que o mata de desgosto.
Ao rigor de Lisi
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Mais dura, mais cruel, mais rigorosa Sois, Lisi, que o cometa, rocha ou muro Mais rigoroso, mais cruel, mais duro, Que o Céo vê, cerca o Mar, a Terra goza. Sois mais rica, mais bela, mais lustrosa Que a perla, rosa, Sol, ou jasmim puro, Pois por vós fica feio, pobre e escuro, Sol em Céo, perla em mar, em jardim rosa. Não vio tão doce, plácida e amena, Brame o Mar, trema a Terra, o Céo se agrave), Luz o Céo, ave a Terra, o Mar sirena. Vós triunfais de sirena, luz e ave, Claro Sol, perla fina, rosa amena, Mor cometa, árduo muro e rocha grave. Jerónimo Baía, Fénix Renascida |
| Substantivos | Adjectivos | Verbos |
| cometa rocha muro céu mar terra perla rosa sol jasmim luz ave sereia jardim |
dura cruel rigorosa rica bela lustrosa puro feio pobre escuro doce plácida amena claro fina mor árduo grave |
sois vê cerca goza fica vio brame trema se agrave triunfais |
Recursos estilísticos:
- Metáfora: "Mais dura, mais cruel, mais rigorosa/Sois, Lisi, que o cometa, rocha ou muro"
- Hipérbole: "por vós fica feio, pobre e escuro,/Sol em Céo, perla em mar, em jardim rosa."
- Perífrase: "Sois mais rica, mais bela, mais lustrosa" - mais perfeita
- Paradoxo: "Mais dura, mais cruel, mais rigorosa… Não vio tão doce, plácida e amena… Luz o Céo, ave a Terra"
- Trocadilho: ""Claro sol, perla fina, rosa amena,/Mor cometa, árduo muro e rocha grave."
Lisi triunfa sobre os ELEMENTOS: ¡gua - sirena, mar, rocha; Terra - muro, rosa, jasmim; Fogo - cometa, sol; Ar - ave, luz, céu.
Cultismo (culto e artifício da forma) - jogo de imagens/palavras, labirinto de ideias/espelhos, forma de evasão.



