Almeida Garret: Poesia
Barca Bela
A sereia atrai fatalmente o pescador; as sereias atraíam os navegadores. Para Ihes escapar, Ulisses teve de tapar os ouvidos com cera e fazer-se amarrar ao mastro do barco. O sujeito poético adora o "Ignoto Deo" que, de acordo com o texto e com a Advertência, é um ser feminino, quase divino, do qual deriva o seu ser.
Indiferente aos avisos sucessivos do sujeito poético, o pescador segue fatalmente em direcção à sua perdição.
O sujeito poético quer ajudar o pescador e impedir a sua perdição.
Nível Fónico
- Métrica: versos de 7, 4 e 3 sílabas; medida popular;
- Rima: monótona: ela/ela/ela e or. A monotonia da rima destina-se a sugerir que o canto da sereia tem a capacidade de adormecer as resistências do pescador. Rima feminina em três versos e masculina no último verso de cada estrofe: domínio do elemento feminino sobre o masculino;
- Aliteração: barca bela. A beleza da barca é o primeiro elemento de perdição. "Não vês… se vela?/Colhe a vela". Sugestão da força do aviso e do pedido do sujeito poético. "Deita o laço com cautela! Que… canta bela". Sugestão do cuidado que o pescador devia ter. "Não se enrede a rede nela… remo…" Sugestão do enredo do pescador nas malhas da rede da sereia, tecida pelo seu canto.
Nível Morfossintáctico
- Homonímia: vela/vela. Jogo de palavras: a sedução é sempre um jogo entre o sedutor e o seduzido;
- Construção paralelística: o refrão, a construção do corpo das estrofes, construções que se repetem (vv.1 e 14). O poema insere-se na poesia popular. A construção paralelística foi bem escolhida para estabelecer o paralelo entre o pescador e a sereia. Tem a aparência de muito simples, mas oferece-nos inúmeros investimentos artísticos, de que já nos apercebemos. Aliás, Garrett dá um exemplo extraordinário de como se deve fazer poesia, sem necessidade de recorrer a linguagem erudita;
- Adjectivação: não sendo muito frequente, tem muita importância. Vejamos: bela - a beleza é o grande elemento de perdição, pois que, além da barca, também a sereia canta de forma bela; nublado - o tempo é outro factor de perdição, com efeito, de noite é muito mais perigoso pescar; perdido - a certeza da perdição;
- Tipos de frase: interrogativa, exclamativa e apelativa. Avisos e apelos sentidos do sujeito poético ao pescador;
- Coordenação e subordinação: são usados ambos os modos de articulação, com um certo predomínio do último, a lembrar a formação neoclássica de Garrett (basta atentar no vocábulo "que" com o significado de porque); todavia, a subordinação é muito fácil, o que, aliando-se à ausência de anástrofes, permite falar na proximidade do discurso com a linguagem popular.
Nível Semântico
- O sujeito poético suplica ao pescador que não vá pescar, pois conhece os perigos fatais que o esperam; a repetição da apóstrofe (Ó pescador!) exprime o seu sofrimento cada vez mais intenso porque vê o pescador cair nos laços fatais da sereia;
- Metáforas e símbolos: "barca bela", "sereia", "pescador" são palavras de valor metafórico e simbólico. Assim, a "barca bela" navega num mar que pode ser metáfora de existência humana; ela própria é metáfora e símbolo de sedução e dos perigos que o homem corre na sua existência; tudo o que é belo é perigoso. Poder-se-á lembrar o famoso poema de Camões "Descalça vai pera a fonte", onde a beleza de Lianor pode correr perigo neste mundo imperfeito. A "sereia" é tradicionalmente um elemento provocador dos navegantes (ver As Sereias, p.139). É também neste poema metáfora e símbolo da sedução e dos perigos que todo o ser humano corre durante a sua existência. O "pescador" é metáfora e símbolo de todo o ser humano que tem de "navegar" no mar da vida, rodeado de perigos. Se se interpretar o poema no contexto onde está inserido, como se deve fazer, então teremos ainda novos sentidos. O pescador é o homem e a sereia é a mulher; esta exerce uma atracção irresistível sobre aquele. Estamos face a um tema querido dos românticos: a mulher como anjo ou como demónio, mas sempre um ser superior, a que o homem se submete.
Todos os elementos se conjugam admiravelmente para a perdição do pescador. A barca é bela, a sereia canta "bela", a noite está a chegar e sem luz é muito difícil senão impossível escapar ao perigo, o mar é sempre perigoso. O pescador não devia cometer a hybris (o desafio) de sair para a pesca.
O discurso de Garrett quer na prosa, quer na poesia, mantém quase sempre um tom parateatral, facto que Ihe é quase natural porque foi um grande dramaturgo, um grande jornalista e um grande comunicador. Neste poema, assiste-se a "um drama em três actos": o sujeito poético dirige-se ao pescador através de avisos e apelos cada vez mais lancinantes, dando a impressão de que está a observar a queda daquele que se atreve a ir para o mar nas condições já descritas. Interroga, apela, suplica, avisa, como se fosse um actor. Não vemos senão as suas palavras, mas estas pressupõem a outra personagem. Podemos ver noutros textos essa personagem através de réplicas que o sujeito poético transcreve.
Este Inferno de Amar
- Tema: a expressão das contradições do amor;
- Desenvolvimento do tema:
- 1º. momento: 1ª. estrofe. Retrata-se a situação presente do sujeito poético, bem visível através da utilização do presente verbal: eu amo, que alenta e consome, é, destrói;
- 2º. momento: 2 ª. quadra. Caracteriza-se o passado distante do sujeito poético, através das formas verbais: era, vivi, foi, dormi;
- 3º. momento: 3 ª. estrofe. Refere-se o passado recente em que o sujeito poético começou a amar, usando formas verbais no imperfeito: dava, giravam, e no pretérito perfeito: passei, pus, fiz, comecei.
- Antinomia passado/presente: o passado está relacionado com uma vida sem conflitos, uma paz, um sonho. O sujeito poético não amava. O presente é a vida cheia de conflitos provocados pelo amor sensual;
- Sentimentos expressos: saudade do passado, prazer no amor sensual, dor provocada pelos conflitos;
- Concepção de amor: amor sensual, gerador de conflitos e de vida;
- Concepção de mulher: um ser causador do estado de contradições em que vive o poeta; mulher sensual (olhos ardentes).
Nível Fónico
Devem destacar-se as aliterações dos fonemas /m/, /s/ e /v/. A consoante /m/ percorre o texto, embora mais saliente nos três primeiros versos e no verso 12; transmite o tom nasal do discurso e sugere a atracção que o poeta sente pelo amor sensual; a consoante /s/ traduz a serenidade do passado; a consoante /v/, a vontade de amar (vagos giravam). A rima não obedece a um esquema rígido, havendo versos cruzados, emparelhados e brancos. O ritmo é variado, feito de pausas e avanços, bem evidente nas interrogações e nas exclamações, nas reticências, um ritmo ao sabor dos sentimentos que se querem transmitir. É também um ritmo acentuadamente binário e ternário, o que deve relacionar-se quer com os dois tempos essenciais (passado e presente) quer com a relação binária eu - ela, quer com a relação mais pormenorizada do tempo: passado longínquo, passado recente e presente e ainda com a relação passado, presente e futuro.
Nível Morfossintáctico
Destacam-se as formas verbais já referidas ligadas aos vários momentos vividos pelo poeta. Há poucos adjectivos, mas mesmo assim são expressivos: serena, doce, formoso, vagos, ardentes. Os dois primeiros caracterizam o passado e os outros o presente; "vagos" tem a função de advérbio e uma conotação de procura; "ardentes", uma conotação de amor sensual. Pontuação livre e expressiva, de acordo com os sentimentos do poeta.
Nível Semântico
- Metáforas: organizam-se dois campos semânticos: o fogo e a luz. À volta do campo semântico do fogo, giram as palavras metafóricas inferno, chama, atear, apagar, ardentes. Significam a realidade do amor sensual, que é semelhante a um fogo, que alastra e destrói, altera sempre a situação anterior. Por isso o sujeito poético vive presentemente um estado contraditório, oposto ao do seu passado. À volta do campo semântico da luz, gravitam as palavras sonho, paz, dormir, sonhar, sol. Significam ausência de conflitos, ausência de amor sensual e possivelmente o amor espiritual. Deve notar-se que este estado não provocava no poeta felicidade, tal como ele a imagina, porque não era vida, era sonho;
- Antíteses: como os dois campos semânticos são antitéticos, é bom de ver que arrastam um vocabulário gerador de antíteses: "alenta e consome" que é a vida - e que a vida destrói", "atear/apagar";
- Coordenadas românticas: o tom confessional, o tom coloquial que se revê na utilização de interjeições e na questionação permanente que vai até ao fim do texto; a contradição amor sensual/amor espiritual, que, não sendo exclusiva dos românticos, atinge na poesia garrettiana um forte expoente conflitual: a supervalorização da mulher como ser fatal, anjo ou demónio.
Os Cinco Sentidos
- Tema: a expressão erótica do amor.
- Desenvolvimento do tema: dois momentos: o primeiro espraia-se pelas cinco estrofes seguidas e o segundo pela última estrofe. Primeiramente, o sujeito poético percorre cada sentido, da visão ao tacto, do mais distante ao mais próximo, num crescendo de actividade em direcção ao culminar da paixão erótica; em seguida e na sequência lógica, exprime-se sinestesicamente o clímax erótico.
- Relação sujeito poético/natureza/mulher: para criar uma atmosfera progressivamente mais agradável, propícia ao desenvolvimento erótico, o poeta serve-se de elementos da natureza que se ligam aos vários sentidos, que não valoriza em si mas apenas para evidenciar o papel da mulher. O prazer que se pode encontrar nesses elementos da natureza existe em muito maior grau na mulher. Sentimentos expressos: prazer no amor sensual, o delírio carnal, a morte de amor.
- Estrutura interna de cada estrofe: as cinco estrofes encontram-se bipartidas; uma parte em versos decassílabos e outra em versos de arte menor ou de seis sílabas. Entre essas duas partes, há, globalmente, uma relação antitética, que a conjunção adversativa "mas", explícita ou implicitamente, traduz. A justificação desta construção encontra-se no facto já referido de os elementos da natureza serem seleccionados para salientar o papel da mulher.
- Valor de:
- Rima interna: (belas/estrelas, cores/flores; Divina/afina, Saudosa/umbrosa; Respira/gira, Celeste/agreste; Formosos/saborosos, mimo/racimo; Macia/luzidia, leito/deito). Cria uma atmosfera agradável, servindo às maravilhas o percurso erótico;
- Aliterações: a repetição do fonema /s/ em todas as estrofes, de forma especial na 5ª., sugere o clima de sensualidade;
- Adjectivação: os adjectivos ou valorizam a natureza ou supervalorizam a mulher;
- Escalonamento das preposições: acompanha a aproximação progressiva entre o sujeito poético e a mulher; segue distribuição dos sentidos, desde a visão (a ti) até ao tacto (em ti); atingido o clímax, aparece a preposição "por" a traduzir a "a morte de amor", tão cara aos românticos;
- Metáforas: as mais significativas estão realizadas nas expressões "pomos saborosos" e "relva luzidia", que significam, respectivamente, seios e corpo da mulher;
- Construção sinestésica da última estrofe: atingido o clímax erótico, os sentidos agem "Todos num confundidos" impedida que está a acção da consciência; esta situação levou à alteração da estrutura da estrofe.
- Coordenadas românticas: o tema do êxtase carnal; a supervalorização da mulher; a pontuação subjectiva; a morte de amor; o idealismo amoroso.
Perfume da Rosa
- Tema: a atracção fatal que a rosa flor = rosa mulher exerce sobre o sujeito poético;
- Desenvolvimento do tema: numa introdução, que abrange as duas primeiras estrofes, o sujeito lírico, num tom teatral, pergunta à rosa/mulher quem tem a felicidade de a amar; em seguida, nas quatro estrofes posteriores, após a resposta, desmonta a mentira dessa resposta, enumerando as alterações verificadas na rosa/mulher, reveladoras do facto de amar e ser amada; depois, nas estrofes 7 e 8, transcrevendo possíveis interpelações/questões vindas da rosa/mulher, volta a declarar que ela mentiu porque ama e é amada; finalmente, em jeito de conclusão, afirma que só uma divindade pode amar tal rosa/mulher. Notar a circularidade do texto: "Ou que nume/Com esse aroma delira?" (1ª. estrofe); "… um nume/O que em teu seio delira" (última estrofe);
- Sentimentos expressos: admiração, amor, paixão, delírio, prazer, dor (Transcrever vocabulário).
- Tom teatral do discurso: é uma das características da escrita de Garrett, grande jornalista, homem de teatro, grande comunicador. Assim, neste poema, 7 estrofes são interrogativas; nas 3ª., 7ª. e 8ª. há interrogações transpostas, vindas do destinatário e, em seguida, as respostas às mesmas. Sente-se a presença do lado de lá do texto, como nos bastidores dum palco, da personagem rosa/mulher;
- Valor expressivo de:
- Apóstrofes: rosa, humilde abelha, rosa namorada. São palavras que referem o destinatário da mensagem, que pelo contexto se sabe tratar-se de uma mulher idealizada que exerce atracção;
- Personificação: percorre todo o texto, já que são atribuídas à rosa atributos pertencentes a seres humanos, como seio, mentiste, namorada, desmaiou, sentida, etc. A apóstrofe implica a personificação;
- Pontuação: a liberdade de pontuação é uma das características dos românticos. Traduz as alterações do estado de espírito do sujeito lírico;
- Metáfora: rosa é metáfora de mulher. Assim, os elementos que a constituem ou que a ela estão ligados por natureza também o são. A metáfora põe em relevo a idealização da mulher;
- Antítese: púrpura viva/palidez, prazer/dor. No primeiro caso, contrastam as alterações que o poeta afirma ter visto na observação da rosa; no segundo, trata-se de uma antítese recorrente nos poemas de Folhas Caídas. São sentimentos que andam aliados ou porque o prazer é excessivo e não há capacidade de o gozar ou porque é momentâneo e, passado, deixa o vazio ou porque se tendem a anular mutuamente.
- Coordenadas românticas: a idealização da mulher; a presença obsessiva do sujeito poético; a expressão de pensamentos; a livre pontuação; o tom parateatral.
Destino
Divisão do poema em partes lógicas
- 1ª. parte: 1ª. e 2ª. estrofes - interrogação sobre quem ensina os animais o que fazem.
- 2ª. parte: 3ª. estrofe - também ele, como os animais, cumpre o destino de a amar.
Elementos da natureza mencionados e tarefas que cumprem
| Estrela | segue caminho | no céu |
| Ave | faz | o ninho |
| Planta | floresce | |
| Verme | tece | mortalha de seda |
| Abelha | pede mel | à flor |
Comparação: como todos os elementos da natureza cumprem o seu destino por instinto, também ele cumpre o seu amando-a. Não pode viver sem ela.
Figuras de estilo predominantes: Personificação e Comparação.
Gozo e Dor
O poema "Gozo e dor" é da autoria de Almeida Garrett, poeta romântico do século XIX, um dos grandes escritores portugueses. Este poema insere-se no livro Folhas Caídas onde, mercê da intensidade passional e do amadurecimento dos recursos de expressão, o poeta atinge o ápice da sua intuição lírica, tornando-se o mais romântico que pôde.
O tema é a contradição que o amor provoca na alma do enamorado. 0 sujeito poético responde de forma negativa à interpelação feita pelo "tu" no sentido de saber se ele se sente feliz com o seu amor. Justifica a resposta por três razões: a imensa ternura (amor) causa-lhe um grande vazio porque não tem capacidade de a viver na totalidade, sente uma indefinida tristeza no seu coração, extasiado com tão grande beleza, o delírio provoca-lhe uma sensação de morte ou de perda de consciência.
O poema divide-se em três momentos que correspondem a cada uma das estrofes. Na 1ª. estrofe, o poeta transcreve a réplica do "tu" e responde-lhe, afirmando não se sentir contente por não ter capacidade de receber em si toda a imensa ternura que, por excessiva, provoca sofrimento; na 2ª. estrofe, confessa que uma pesada tristeza se apoderou de seu coração porque sofre o fascínio irreprimível do "tu", que Ihe retira a capacidade de discernir se ainda tem vida ou se já foi totalmente absorvido; finalmente, na última estrofe, em jeito de conclusão, aponta a grande razão do seu estado contraditório: é demasiado pequeno para tanto amor; reconhecendo o delírio amoroso, apercebe-se de que se aproxima ou da morte ou da perda de consciência.
O poeta encontra-se num estado de contradições dolorosas, como acontece em tantos poemas. Não tem capacidade de amar porque escolheu o caminho errado: o dos sentidos, sempre insatisfeitos e vazios. É, pois, sujeito de fortes tensões que explodem em antinomias que se atraem e repelem: gozo/dor, vida/morte, coração/razão. Antíteses "O excesso de gozo é dor", "Não sei se morro se vivo", e hipérboles "Porque a vida me parou", "Sinto que se exaure em mim", são os recursos de estilo mais adequados à expressão do estado de espírito do sujeito poético. Exagerando ou idealizando o "tu", não pode deixar de sofrer o seu fatal fascínio que o domina e o coloca em visíveis contradições, já anteriormente mencionadas.
De acordo com o texto e com o contexto, deve falar-se, em primeiro lugar, do amor sensual que causa o delírio dos sentidos e é incontrolável. Provoca momentos de êxtase e de vazio. Palavras como ternura, amor, gozo, coração, beleza, gozar, delirante, apontam nesse sentido. Mas, por contraste, pode também vislumbrar-se outro tipo de amor: o amor espiritual, que produziria efeitos contrários: paz, plenitude, alegria, etc. Garrett não foi capaz de harmonizar estes dois tipos de amor.
O Romantismo valoriza principalmente os sentimentos, as sensações, os sentidos, o vivido, o fugaz, e, por isso, não pode escapar a estados contraditórios. Os sentidos são insaciáveis. Em segundo lugar, a idealização da mulher. O adjectivo "querida" torna-a evidente. Os efeitos são, como era de esperar, o domínio sobre o "eu". É a mulher-anjo dos românticos. Depois há o discurso parateatral - uma novidade de Garrett, que teve o mérito de conferir à linguagem literária uma aproximação do tom coloquial e da vida. Finalmente, o exibicionismo do "eu" que, mesmo fascinado pela atracção fatal do "tu", parece comprazer-se no domínio e no sofrimento.



