Almeida Garret: Poesia

Barca Bela

A sereia atrai fatalmente o pescador; as sereias atraíam os navegadores. Para Ihes escapar, Ulisses teve de tapar os ouvidos com cera e fazer-se amarrar ao mastro do barco. O sujeito poético adora o "Ignoto Deo" que, de acordo com o texto e com a Advertência, é um ser feminino, quase divino, do qual deriva o seu ser.

Indiferente aos avisos sucessivos do sujeito poético, o pescador segue fatalmente em direcção à sua perdição.

O sujeito poético quer ajudar o pescador e impedir a sua perdição.

Nível Fónico

Nível Morfossintáctico

Nível Semântico

Todos os elementos se conjugam admiravelmente para a perdição do pescador. A barca é bela, a sereia canta "bela", a noite está a chegar e sem luz é muito difícil senão impossível escapar ao perigo, o mar é sempre perigoso. O pescador não devia cometer a hybris (o desafio) de sair para a pesca.

O discurso de Garrett quer na prosa, quer na poesia, mantém quase sempre um tom parateatral, facto que Ihe é quase natural porque foi um grande dramaturgo, um grande jornalista e um grande comunicador. Neste poema, assiste-se a "um drama em três actos": o sujeito poético dirige-se ao pescador através de avisos e apelos cada vez mais lancinantes, dando a impressão de que está a observar a queda daquele que se atreve a ir para o mar nas condições já descritas. Interroga, apela, suplica, avisa, como se fosse um actor. Não vemos senão as suas palavras, mas estas pressupõem a outra personagem. Podemos ver noutros textos essa personagem através de réplicas que o sujeito poético transcreve.

Este Inferno de Amar

Nível Fónico

Devem destacar-se as aliterações dos fonemas /m/, /s/ e /v/. A consoante /m/ percorre o texto, embora mais saliente nos três primeiros versos e no verso 12; transmite o tom nasal do discurso e sugere a atracção que o poeta sente pelo amor sensual; a consoante /s/ traduz a serenidade do passado; a consoante /v/, a vontade de amar (vagos giravam). A rima não obedece a um esquema rígido, havendo versos cruzados, emparelhados e brancos. O ritmo é variado, feito de pausas e avanços, bem evidente nas interrogações e nas exclamações, nas reticências, um ritmo ao sabor dos sentimentos que se querem transmitir. É também um ritmo acentuadamente binário e ternário, o que deve relacionar-se quer com os dois tempos essenciais (passado e presente) quer com a relação binária eu - ela, quer com a relação mais pormenorizada do tempo: passado longínquo, passado recente e presente e ainda com a relação passado, presente e futuro.

Nível Morfossintáctico

Destacam-se as formas verbais já referidas ligadas aos vários momentos vividos pelo poeta. Há poucos adjectivos, mas mesmo assim são expressivos: serena, doce, formoso, vagos, ardentes. Os dois primeiros caracterizam o passado e os outros o presente; "vagos" tem a função de advérbio e uma conotação de procura; "ardentes", uma conotação de amor sensual. Pontuação livre e expressiva, de acordo com os sentimentos do poeta.

Nível Semântico

Os Cinco Sentidos

Perfume da Rosa

Destino

Divisão do poema em partes lógicas

Elementos da natureza mencionados e tarefas que cumprem

Estrela segue caminho no céu
Ave faz o ninho
Planta floresce
Verme tece mortalha de seda
Abelha pede mel à flor

Comparação: como todos os elementos da natureza cumprem o seu destino por instinto, também ele cumpre o seu amando-a. Não pode viver sem ela.

Figuras de estilo predominantes: Personificação e Comparação.

Gozo e Dor

O poema "Gozo e dor" é da autoria de Almeida Garrett, poeta romântico do século XIX, um dos grandes escritores portugueses. Este poema insere-se no livro Folhas Caídas onde, mercê da intensidade passional e do amadurecimento dos recursos de expressão, o poeta atinge o ápice da sua intuição lírica, tornando-se o mais romântico que pôde.

O tema é a contradição que o amor provoca na alma do enamorado. 0 sujeito poético responde de forma negativa à interpelação feita pelo "tu" no sentido de saber se ele se sente feliz com o seu amor. Justifica a resposta por três razões: a imensa ternura (amor) causa-lhe um grande vazio porque não tem capacidade de a viver na totalidade, sente uma indefinida tristeza no seu coração, extasiado com tão grande beleza, o delírio provoca-lhe uma sensação de morte ou de perda de consciência.

O poema divide-se em três momentos que correspondem a cada uma das estrofes. Na 1ª. estrofe, o poeta transcreve a réplica do "tu" e responde-lhe, afirmando não se sentir contente por não ter capacidade de receber em si toda a imensa ternura que, por excessiva, provoca sofrimento; na 2ª. estrofe, confessa que uma pesada tristeza se apoderou de seu coração porque sofre o fascínio irreprimível do "tu", que Ihe retira a capacidade de discernir se ainda tem vida ou se já foi totalmente absorvido; finalmente, na última estrofe, em jeito de conclusão, aponta a grande razão do seu estado contraditório: é demasiado pequeno para tanto amor; reconhecendo o delírio amoroso, apercebe-se de que se aproxima ou da morte ou da perda de consciência.

O poeta encontra-se num estado de contradições dolorosas, como acontece em tantos poemas. Não tem capacidade de amar porque escolheu o caminho errado: o dos sentidos, sempre insatisfeitos e vazios. É, pois, sujeito de fortes tensões que explodem em antinomias que se atraem e repelem: gozo/dor, vida/morte, coração/razão. Antíteses "O excesso de gozo é dor", "Não sei se morro se vivo", e hipérboles "Porque a vida me parou", "Sinto que se exaure em mim", são os recursos de estilo mais adequados à expressão do estado de espírito do sujeito poético. Exagerando ou idealizando o "tu", não pode deixar de sofrer o seu fatal fascínio que o domina e o coloca em visíveis contradições, já anteriormente mencionadas.

De acordo com o texto e com o contexto, deve falar-se, em primeiro lugar, do amor sensual que causa o delírio dos sentidos e é incontrolável. Provoca momentos de êxtase e de vazio. Palavras como ternura, amor, gozo, coração, beleza, gozar, delirante, apontam nesse sentido. Mas, por contraste, pode também vislumbrar-se outro tipo de amor: o amor espiritual, que produziria efeitos contrários: paz, plenitude, alegria, etc. Garrett não foi capaz de harmonizar estes dois tipos de amor.

O Romantismo valoriza principalmente os sentimentos, as sensações, os sentidos, o vivido, o fugaz, e, por isso, não pode escapar a estados contraditórios. Os sentidos são insaciáveis. Em segundo lugar, a idealização da mulher. O adjectivo "querida" torna-a evidente. Os efeitos são, como era de esperar, o domínio sobre o "eu". É a mulher-anjo dos românticos. Depois há o discurso parateatral - uma novidade de Garrett, que teve o mérito de conferir à linguagem literária uma aproximação do tom coloquial e da vida. Finalmente, o exibicionismo do "eu" que, mesmo fascinado pela atracção fatal do "tu", parece comprazer-se no domínio e no sofrimento.