Fernando Pessoa: Mensagem

O primeiro e único livro em português que Pessoa publicou em vida foi Mensagem. Tratou-se de "um livro de versos nacionalista" (Páginas Íntimas, pg. 437), um livro "abundantemente embebido em simbolismo templário e rosicruciano" (idem, pg. 433), ao mesmo tempo marcado por tonalidades épicas e messiânicas.

Pessoa publicou o livro em 1934. E ele mesmo afirma que o pôs à venda, "propositadamente em 1 de Dezembro" (idem, pg. 433). Este propositadamente é deveras significativo, dada a carga simbólica que o dia da Restauração encerra, pretendendo o poeta com esse gesto dar o tom das intenções patrióticas que o dominavam. Aliás, a composição do livro arrastou-se - e também significativamente - ao longo de vários anos. Pode-se mesmo dizer, na base de uma entrevista que Pessoa concedeu ao Diário de Lisboa de 14 de Dezembro de 1934, que o desejo de compor esse livro vinha já do tempo de Orpheu, tendo ele adquirido forma entre sensivelmente o ano de 1913 e o de 1934 - com principal incidência nos anos de 1928 e de 1934, dos quais data uma parte considerável das composições que são dele parte integrante (repare-se que muitos poemas se encontram datados).

Não deixa de ser ainda significativo que tenham constado dos primeiros textos críticos que Pessoa publicou as linhas orientadoras que dariam origem a Mensagem. Tratou-se dos cinco trabalhos críticos saídos em A Águia (a partir do seu nº. 4 - Abril de 1912), sob o título A Nova Poesia Portuguesa.

Aliás, o sonho de Pessoa tem bastante que ver, pelo menos inicialmente, com o ideal da Renascença Portuguesa. Pessoa mostra integrar-se em "aquelas instituições proféticas do poeta Teixeira de Pascoaes", como ele diz, antevendo o "ressurgimento assombroso de Portugal, um período de criação literária e social como poucos o mundo tem tido, em que a alma portuguesa encerraria a alma recém-nada da futura civilização europeia, que será uma civilização lusitana". E afirma ainda Pessoa: "A futura criação social da Raça Portuguesa será qualquer cousa que seja ao mesmo tempo religiosa e política, ao mesmo tempo democrática e aristocrática, ao mesmo tempo ligada à actual fórmula da civilização e a outra cousa nova".

Em Mensagem, Pessoa assume-se como cantor do fim do império português, como Camões se havia imortalizado como cantor do seu início. Um e outro se colocam numa posição temporal simétrica em relação ao império: Camões, um pouco depois do império se ter levantado, Pessoa, um pouco antes de ele se desmoronar.

Mas apesar de alguns paralelismos possíveis entre ambos os "épicos", deverão esclarecer-se entre eles algumas diferenças consideráveis. É que Pessoa já não canta, como Camões cantou, o império real, o expansionismo material para oriente, a cruzada religiosa contra os infiéis, a ultrapassagem dos obstáculos físicos que se erguiam aos portugueses por terra e por mar.

Para Pessoa, o império material é antes "um obscuro e carnal antearremedo". O seu objectivo é perseguir uma "Índia que não há". Ele considera-se investido por alguém superior no cargo de anunciador de um novo Quinto Império (de que já havia falado Vieira): o primeiro império foi o da Babilónia, o segundo o Medo-Persa, o terceiro o Grego, o quarto o Romano, e o quinto… o Português. Ele refere que é vítima de um intenso sofrimento patriótico: "O meu intenso sofrimento patriótico, o meu intenso desejo de melhorar o estado de Portugal, provocam em mim… mil projectos… o sofrimento que isto produz não sei se poderá ser definido como situado aquém da loucura" (Diário, 1908).

O Portugal que ele antevê no futuro situa-se além do material. Escreve ele: "E a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo que os sonhos são feitos. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á…" (em A Nova Poesia Portuguesa).

É preciso que Portugal se cumpra (poema "Infante"), depois que se desfez o império real: "O império do mar, antearremedo do que há-de vir, dá lugar a um ciclo de desintegração que abrirá caminho ao Encoberto, ao messias que fará cumprir-se Portugal".

Portugal não será assim grande em domínio territorial, mas em valores espirituais e morais. Será talvez um império da língua portuguesa (que dentro em breve se prevê que seja falada por mais de 200 milhões de pessoas, nos cinco continentes), um império do modo de ser português, do culto da solidariedade e capacidade de adequação às situações mais imprevistas, que sempre caracterizou esse "modo de ser português" em todas as longitudes, da vocação especificamente portuguesa de se repartir em diáspora por todo o mundo, pacificamente, abnegadamente, empenhadamente através da emigração, de um certo ideal de Europa, ou até de lusitanidade. Talvez fosse em qualquer coisa relacionada com isto que estaria a pensar Fernando pessoa ao manifestar o seu patriotismo messiânico.

O objectivo do poeta é portanto espiritualista, desligado do espaço e do tempo reais; uma Índia nova, que não há, para onde só se viaja em naus construídas daquilo que os sonhos são feitos

Para realizar o novo sonho português e devolver à Pátria a grandeza perdida, Pessoa fala da vinda de um outro Camões, um Supra-Camões (que seria por certo ele mesmo) a aparecer em breve.

O título escolhido para o livro (Mensagem) é já por si significativo das intencionalidades do poeta. É na verdade uma mensagem que ele pretende comunicar - a de que Portugal estaria determinado para desempenhar a outra missão profunda, não já a missão material, como a que deu origem ao império real; a outra de sentido diferente, para a qual se estaria a preparar.

Foi com Vieira, segundo declara, que esse seu sentimento patriótico despertou: "Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E… chorei: hoje, relembrando, ainda choro… Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, um sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa" (Bernardo Soares - Livro do Desassossego).

E isso não foi só com Vieira, mas ainda com Bandarra. É nestes seus versos que encontra fundamento para profetizar o surgimento do Quinto Império: "Em vós que haveis de ser Quinto/Depois de morto o Segundo,/Minhas profecias fundo/Nestas letras que VOS pinto". É em VOS que se encontra toda a força desta quadra de Bandarra: V - do latim "vis" (força); O - de "otium" (descanso); S - de "Scientia" (ciência). Pessoa vê aqui as três fases por que passaria o cumprimento da profecia de Bandarra: D. Manuel, sucessor de D. João II, é a "vis"; D. João V, sucessor de D. Pedro II, é o "otium"; a "sciencia" corresponde ao Quinto Império, que todavia Pessoa não chegou a caracterizar.

As 44 composições que constituem o livro encontram-se repartidas por três partes:

São nítidas as intenções ocultistas disseminadas por todo o livro, à mistura com referências à Cabala e Rosacrucismo e variadas alusões esotéricas.

Na primeira parte de Mensagem, referem-se mitos e figuras históricas de Portugal, significativamente até D. Sebastião, que são identificados com elementos de heráldica (campos, castelos, quinas, coroa, timbre) presentes no brasão português. É uma certa imagem de Portugal que se pretende transmitir - um Portugal erguido à custa do esforço abnegado de muitos heróis, que muitas vezes não agiram por seu próprio expediente, mas instigados por forças sobrenaturais; um Portugal predestinado a grandes feitos, que tem como "cabeça do grifo" o Infante D. Henrique, e como suas asas D. João II e Afonso de Albuquerque - precisamente três das personalidades mais determinantes na formação do império, na sua consumação e na sua consolidação. Um Portugal que há-de ser rosto da Europa, que esta não desdenhará de ter.

Na segunda parte, o poeta vai referir personalidades e factos dos descobrimentos portugueses, sempre encarados na perspectiva de missão que competia a Portugal cumprir. É posta em destaque a projecção universal que os descobrimentos portugueses implicaram, e os esforços sobre humanos que foi preciso desenvolver na luta contra os elementos naturais, hostis e desconhecidos. E embora Portugal ainda se não tenha cumprido, tudo valeu a pena, porque foi feito com grandeza de alma…

Na terceira parte, o poeta quer referir que Portugal parece estar encerrado numa prisão servil, parece estar envolto em trevas, estar a entristecer. Mas apesar disso, um novo império se erguerá, anunciado pelos símbolos e pelos avisos. O Portugal que hoje é nevoeiro regenerar-se-á. O povo que hoje se mostra entristecido transmutar-se-á num outro povo que erigirá uma outra Pátria. Será essa a Índia que não há, mas é preciso que seja edificada. Só com a loucura e a abnegação dos heróis (esses nadas que afinal são tudo) será possível pôr esse sonho de pé. Um novo Camões virá (um Supra-Camões, que pessoa acreditava poder vir a ser ele mesmo), para transformar o medíocre em grandioso e guiar a pátria portuguesa no caminho da dignidade merecida mas que ainda não lhe foi possível alcançar. É precisamente a hora.

E o livro termina com a saudação rosacruciana: "Valete, fratres" - sede fortes, perseverai, passai bem, irmãos…

Infante de Fernando Pessoa

O desenvolvimento do assunto processa-se em três partes, três momentos:

Vê-se, portanto, que o assunto evoluciona primeiro do geral (universal) para o particular: o "homem" e a "obra" do primeiro verso têm aplicação universal, ao passo que, na segunda parte, o "homem" se particulariza no Infante e a "obra" na epopeia marítima. Dá-se, depois, na passagem da segunda para a última parte do poema, uma mudança de sentido oposto: transição de um plano particular (Infante) para um plano geral (os Portugueses).

 

Verifica-se no poema uma dinâmica de tipo hegeliano. Já no primeiro verso aparece a sucessão tripartida: Deus - o homem - a obra. Mas onde se verifica mais claramente a dinâmica da tese, antítese e síntese é na última estrofe. Pela vontade de Deus (causa remota) e pelo querer e acção do homem português (causa próxima), realizou-se a epopeia marítima, "Cumpriu-se o mar" (tese), mas, logo a seguir, "o Império se desfez" (antítese). Dá-se o desânimo nacional, uma pausa no caminho glorioso do nosso povo. Daí a súplica do poeta ao Ser que dá origem a tudo: "Senhor, falta cumprir-se Portugal!"... Sugere-se, pois, uma nova acção de Deus e do homem português, de forma a repor, ou a acrescentar ainda mais, a glória do povo luso (síntese que é uma nova tese). Esta nova dinâmica tem de começar como no princípio, em Deus. De novo se vai repetir a mesma sequência causal do primeiro verso do poema: um impulso de Deus - um sonho do homem - e uma nova epopeia.

 

O poeta teve em vista realçar a função iniciática do Infante na obra dos Descobrimentos, acção essa que lhe foi confiada pela própria divindade. Daí o emprego de palavras carregadas de conotações simbólicas. Assim, a expressão "sagrou-te", talvez ligada na mente do poeta à palavra Sagres (o Infante de Sagres), sugere a escolha do Infante para uma missão divina ("Deus quer"). O facto de o poeta usar maiúsculas em "Mãe" e "Império" revela um processo destinado a dar às palavras uma dimensão marcadamente simbólica. A própria palavra "mar" é símbolo do desconhecido, do mistério. Daí as expressões "desvendando a espuma" (desfazendo o mistério), "nos deu sinal" (dar um sinal é dar a chave para decifrar o mistério), que denunciam já o levantar de um véu, o caminhar para a plena luz.

As palavras, ou expressões "espuma" (branca), "orla branca", "clareou", "surgir" (sair das sombras, revelar-se), "do azul profundo" (do mar imenso, do fundo do mistério), com todo o seu conteúdo simbólico, exprimem a passagem do mistério para a plena luz. Esta passagem apresenta-se corno repentina, espectacular, miraculosa. É o que sugere a expressão: "E viu-se a terra inteira, de repente, / Surgir redonda...".

Esta visão da "terra redonda", surgida repentinamente, sugere a ideia de que a obra dos portugueses é o realizar de um plano divino. O redondo, a esfera, é o símbolo da perfeição cósmica, da unidade, da obra completa e perfeita que Deus quis: "Deus quer... I Deus quis que a terra fosse toda uma..." O próprio "Infante" surge-nos aqui mais como o símbolo do herói português escolhido por Deus para ser agente da sua vontade do que como ser individual: "Quem te sagrou criou-te português".

É nítido no poema um certo pendor dramático, não só atendendo à tensão emocional, que se revela sobretudo na segunda estância, com a visão da terra redonda surgindo magicamente do azul profundo, mas, também, porque há três personagens: o sujeito emissor (o poeta), Deus e o Infante. Se os dois últimos não falam, o primeiro dirige-se ao Infante ("sagrou-te", "Quem te sagrou", "em ti") e interpela Deus ("Senhor, falta cumprir-se Portugal"). Há portanto um diálogo, pelo menos implícito (sugerido), o que está de harmonia com o carácter misterioso, messiânico, do poema.

 

O texto começa com os verbos no tempo presente ("quer", "sonha", "nasce"), de harmonia com o discurso axiomático ou aforístico do primeiro verso, passa para o tempo passado ("quis", "sagrou-te", "foi", "clareou", "viu-se") narrativo de acontecimentos passados, para regressar ao tempo presente ("Falta cumprir -se Portugal"). A sucessão presente - passado - presente sugere a dinâmica hegeliana, já referida, da tese, antítese e síntese e seu retorno. Após a primeira aventura vitoriosa dos portugueses ("o Império se fez"), veio o desânimo. Por isso, o poeta exclama, voltando-se para Deus: "Senhor, falta cumprir-se Portugal". Este presente "falta" confere à frase uma sugestão de urgência, necessidade. Note-se que esta última frase do texto, com toda a sua indeterminação e ambiguidade, juntamente com todas as palavras e expressões carregadas de conotações simbólicas (já assinaladas atrás) dá ao poema características simbolistas. O ultimo verso só indirectamente formula uma suplica a Deus. Apenas se enuncia perante Ele um facto: "falta cumprir-se Portugal".

As frases são curtas: seis frases correspondem cada uma a um verso. Note-se, por exemplo, que o último verso do poema sugere mais do que claramente afirma. É uma frase aberta a muitos cambiantes de sentidos: não afirma claramente, sugere.

O poema é constituído por três estrofes (quadras), os versos são decassílabos. São versos de ritmo largo (no geral ternário, mas às vezes binário). Este ritmo, largamente repousado, convém a um discurso carregado de simbolismo, em que é mais importante o que está nas entrelinhas, do que o que denota a própria letra. A rima, sempre cruzada, segundo o esquema rimático ABAB, CDCD, EFEF, permite que certas palavras chaves do poema se encontrem em posições de destaque, no fim dos versos, como "nasce", "uma", "mundo", "português", "sinal", "Portugal".

O Mostrengo

São nítidas as características dramáticas do poema. Em primeiro lugar, há a alternância do discurso directo-indirecto. O sujeito de enunciação (poeta), depois de fazer uma pequena introdução, em que apresenta o mostrengo revolvendo-se aterrador à volta da nau, introduz o diálogo entre o monstro voador e o marinheiro (Bartolomeu Dias). Até ao fim do poema, o sujeito de enunciação intervém apenas por meio de orações intercaladas (explicativas) sempre que a fala passa do mostrengo para o marinheiro. Note-se que as duas últimas falas (último verso da segunda estrofe e os seis últimos versos da terceira) são do marinheiro, e que a última é precedida por três versos do sujeito de enunciação, destinados a evidenciar a tensão altamente dramática em que se encontrava Bartolomeu Dias:


Três vezes ao leme as mãos ergueu
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse ao fim de tremer três vezes

 

De notar ainda que a última fala do poema, a mais longa de todas (seis versos), é do marinheiro português e nela está contida a sua dramática determinação de prosseguir a rota traçada por EI-Rei D. João II, não obstante o imenso terror incutido pelo monstro voador. Ao longo do diálogo nota-se uma grande tensão entre as duas personagens, inconciliáveis devido à agressividade do mostrengo e à determinação do marinheiro. Mas o tom dramático do texto, mais que pelo diálogo, é dado pela elevada tensão emocional que o percorre. Essa tensão emocional revela-se logo no início do poema. Assim, o mostrengo surge rodeado de mistério, pois "está no fim do mar" (noite escura).

O mistério está também na expressão "três vezes" (que se repete sete vezes no poema). O numero três está relacionado com as ciências ocultas, é um numero cabalístico, é um triângulo sagrado, presente em muitas religiões, como a tríade da religião egípcia, a tríade capitolina (em Roma), a tríade dos cristãos (Santíssima Trindade). De notar que a expressão "três vezes" aparece, em lugar de destaque, no fim do terceiro verso de todas as estrofes, que são três e que têm cada uma nove versos (múltiplo de três) e aparece três vezes o refrão "EI-Rei D. João Segundo" que tem seis sílabas (múltiplo de três).

No discurso do mostrengo há também expressões carregadas de mistério-terror: "'Quem é que ousou entrar / Nas minhas cavernas que não desvendo, / Meus tectos negros do fim do mundo?' '(...) Que moro onde nunca ninguém me visse / E escorro os medos do mar sem fundo?'". A dinâmica agressiva do texto é ainda sugerida pela abundância de formas verbais que traduzem movimentos incontroláveis, violentos, de terror: "ergueu-se a voar", "voou três vezes a chiar", "ousou", "tremendo", "roço", "rodou" (três vezes), "tremeu", "ergueu" (as mãos, três vezes), "reprendeu", "tremer" (três vezes), "ata" (ao Ieme). Para caracterizar o ambiente de terror e mistério, o poeta usa uma linguagem, fazendo apelo sobretudo às sensações visuais e auditivas: "noite de breu", "cavernas", "tectos negros", "as quilhas que vejo", "nas trevas do fim 'do mundo", "voou três vezes a chiar", "as quilhas que... ouço". É também muito impressionista a linguagem que nos dá a localização espácio-temporal da cena: "à roda da nau", "no fim do mar", "Nas minhas cavernas", "Meus tectos negros do fim do mundo", "onde nunca ninguém me visse", "mar sem fundo". Mas o ambiente de emoção e terror centra-se sobretudo nas atitudes sinistras do mostrengo: "À roda da nau voou três vezes", "rodou três vezes", "Três vezes rodou imundo e grosso", "escorro os medos do mar sem fundo".

 

A abundância de formas verbais (aparecem trinta e cinco e algumas são subentendidas) e de substantivos, e a quase não existência de adjectivos (aparecem apenas "negros" e "imundo e grosso", expressivos do mistério-terror) são processos que denunciam a sucessão incontrolável, dramática, dos acontecimentos. O mesmo efeito tem também a repetição da coordenativa "e" (polissíndeto). A emoção dramática é também evidenciada a nível semântico. É notável a expressividade das metáforas, ou imagens, contidas nas expressões: "nas minhas cavernas", "meus tectos negros do fim do mundo", "e escorro os medos", "a vontade que me ata ao leme":

É muito importante a figura da reiteração (repetição). Já vimos a importância da repetição de "três vezes", de conotação ocultista ou cabalística, ligada ao destino, à fatalidade. Há também a anáfora nos dois primeiros versos da segunda e terceira estrofes ("De quem são... ! De quem..."; "Três vezes..." "Três vezes..."). A função emotiva da linguagem ressalta também das exclamações, no ultimo verso de cada uma das estrofes, espécie de refrão, que repete a emotividade do marinheiro. As características dramáticas do texto são ainda realçadas pela interrogação, usada na primeira estrofe (uma vez) e na segunda (três vezes), exprimindo a emotividade agressiva do mostrengo. Nestas interrogações combinam-se as funções emotiva, fática e imperativa da linguagem. A repetição do refrão "El-Rei D. João Segundo", no fim de cada estrofe (lugar de destaque), além de acentuar a ligação inabalável do marinheiro à vontade de EI-Rei, constitui uma espécie de coro, uma espécie de voz secreta do destino a incitar o marinheiro a cumprir a sua missão (característica Trágica).

Tal como a personificação do Adamastor n' Os Lusíadas de Camões, também aqui a personificação do Mostrengo (que voa, chia, ameaça) funciona como símbolo dos perigos e ameaças do mar tenebroso. A tensão dramática cresce ao longo do poema, à medida que se agudizam as posições irredutíveis das duas personagens. Note-se que o narrador introduz por meio de "E disse" a primeira fala do Mostrengo, ao passo que a segunda é introduzida pelas orações intercaladas: "Disse o mostrengo e rodou três vezes,! Três vezes rodou imundo e grosso". Enquanto na primeira fala ele apenas "disse", na segunda sublinhou as palavras com atitudes raivosas. Há, pois, um crescendo de irascibilidade no Mostrengo. O mesmo sucede com o homem do leme. Primeiro "disse, tremendo" (primeira fala), depois "tremeu, e disse" (segunda fala), finalmente "E disse no fim de tremer três vezes". Na primeira fala o homem do leme falava a tremer ("tremendo"), na segunda e terceira fala, falava depois de tremer (quando falava não tremia). Há portanto um crescendo de coragem e valentia da parte do homem do leme, que culmina na sua última fala, quando ele se compenetra de que representa o povo português e de que nele manda mais a vontade de El-Rei do que o terror incutido pelo Mostrengo.

É na última estrofe que a tensão dramática atinge o clímax. E este drama passa-se sobretudo no íntimo do homem do leme. Não foi fácil chegar à sua última resposta, segura e inabalável. Com efeito, atitudes contraditórias (prender e desprender as mãos do leme, tremer e deixar de tremer) antes da sua última fala, revelam ainda uma certa insegurança, um certo estado duvidoso. O drama está no seu conflito interior: ele era um homem dividido entre o terror e a coragem. O terror vinha do Mostrengo; a coragem, da missão que do alto lhe fora confiada. A forma do poema adapta-se à emoção dramática e ajuda a criá-la. Os versos são irregulares (há versos de dez sílabas, de nove, de oito, de seis), optando o poeta por um ritmo livre, um ritmo interno adaptado à emoção descontrolada, em vez da regularidade do ritmo externo. A rima, que apresenta o esquema AABAACDCD tem uma predominância de sons nasais e fechados. De notar que o terceiro (mais uma vez o numero três) verso de cada estrofe é branco (sem rima). A predominância de sons nasais e fechados, ao longo de todo o poema, e sobretudo no refrão, que se repete três vezes, como um coro que lança presságios, dá ao poema uma ressonância pesada e sombria, que confirma o seu tom dramático. No refrão ressoa a vontade férrea de El-Rei D. João lI, mas a luta entre o monstro "imundo e grosso" (mar tenebroso) e o homem do leme (povo português), não tendo solução no poema, ressoa como um presságio de todos os naufrágios da nossa História Trágico-Marítima. E, assim, o poema, sendo profundamente dramático, é, ao mesmo tempo, altamente épico.

 

A predominância do verso decassílabo, a harmonia imitativa (onomatopeia) produzida pelos vv, pelos li e pelo ch, imitando o som do voar do mostrengo, a abundância dos sons fechados e nasais, a frequência dos n' ("rodou três vezes"), são processos fónicos que já se verificam no episódio do Adamastor, em Camões, e que produzem aquele estilo "alto e sublimado", "de tuba canora e belicosa", próprio da epopeia, da poesia épica. Mas esse estilo "alto e sublimado" é ainda produzido por todos os processos estilísticos já apontados atrás. Nos seus aspectos formais, o poema enquadra-se, pois, dentro da poesia épica. Mas o que mais coloca o texto dentro da poesia épica é o seu conteúdo, a sua finalidade. É evidente que ressalta aqui o mesmo espírito cavaleiresco, de exaltação patriótica, que existe n' Os Lusíadas. O homem do leme é todo um povo que quer o mar e que não se deixa vergar pelo monstro "imundo e grosso", símbolo de todos os medos do "mar sem fundo". A epopeia é o mundo poético dos heróis. Toda a dinâmica deste poema se orienta para nos pôr perante uma luta desigual entre o monstro invencível que é o mar e a teimosia heróica de Portugal. Note-se como a última fala do homem do leme, a mais longa de todas, aponta o segredo da sua coragem, que não nasce dele, mas lhe vem do alto, e constitui o fecho do poema. Há, pois, no final do texto, a sugestão de que o povo português vai continuar a luta contra o que humanamente é invencível, o "mar sem fundo". Estamos, portanto, no mundo dos heróis: este poema tem a dinâmica da poesia épica.

Prece

Discurso na 1.ª pessoa: Restam-nos, nós, conquistemos, nossa.

As marcas da presença do receptor: Senhor, Dá.

A formulação do pedido: Dá sopro, a aragem.

As marcas de oposições constantes nas duas primeiras estrofes: noite, tormenta, vontade, silêncio hostil, morto em cinzas, erguê-la ainda.

Tempos verbais predominantes nessas estrofes: Presente do indicativo e futuro.

Simbologia da noite: a noite como derrota, como a espera pelo futuro, pela glória futura.

A expressividade da repetição do termo "ainda": há esperança; a repetição de "ainda" indica que nem tudo esta perdido.

A isotopia da esperança: segunda estrofe.

O prenúncio do Quinto Império: terceira estrofe.

A expressividade dos recursos estilísticos utilizados: adjectivação, substantivos abstractos, personificação.


Screvo meu livro à beira-mágoa
 

As marcas discursivas do eu-tu: meu livro, meu coração, Só tu Senhor, meus, quando virás. A relação eu-tu está patente em todas as estrofes do poema e é certamente intencional a última invocação do poeta ao "Desejado" no último verso: "meu sonho e meu Senhor?" O "eu" está no sonho (o poeta é que sonha); o tu está no "Senhor". Nesta expressão, que é o fecho do poema, acaba por realizar-se a identificação mental entre o eu e o tu: o "Sonho" é subjectivamente do poeta (ele é que sonha), mas objectivamente é o "Encoberto". Daí a dupla invocação "meu sonho e meu Senhor".

O papel atribuído a tais entidades: o presente (primeira parte) é o tempo da persistência angustiada do poeta, consolada apenas com o pressentir e o pensar no possível salvador ("Senhor"); o futuro (segunda parte) é o tempo da ansiedade, da súplica ao "Encoberto" para que apresse a sua vinda, a fim de transformar o seu longo anseio em realidade tranquilizante.

As referências semânticas para a dimensão mítica.

A funcionalidade dos tempos verbais dominantes: Na primeira parte, em que o poeta exprime a sua situação emocional no momento em que escreve, aparecem os verbos no tempo presente. Na segunda parte, em que o poeta pergunta ao "Encoberto" quando virá, os verbos já se encontram no tempo futuro. Logo o presente (primeira parte) é o tempo da persistência angustiada do poeta, consolada apenas com o pressentir e o pensar no possível salvador ("Senhor"); o futuro (segunda parte) é o tempo da ansiedade, da súplica ao "Encoberto" para que apresse a sua vinda, a fim de transformar o seu longo anseio em realidade tranquilizante.

A natureza épico-lírica deste poema: O poema é nitidamente sebastianista. O poeta, dilacerado pela dor dos seus "dias vácuos", encontra no "Encoberto" a única razão de viver, a única esperança de salvação. Identifica o seu sonho com o sonho (esperança) do povo português. Há aqui a ideia do Quinto Império de que o poeta se julgava o arauto: o super-poeta do super-Portugal. Encontram-se, na verdade, todos os ingredientes do sebastianismo neste poema. Há a ideia da degradação nacional personalizada no poeta: "Meu coração não tem que ter", "Meus dias vácuos", "De a quem morreu o falso Deus, do mal que existo". Desta frustração presente do poeta (e de Portugal) surge a ideia do Salvador: "Só tu, Senhor, me dás viver..., Meus dias vácuos enche e doura..., Nova Terra e Novos Céus..., um grande anseio, minha esperança amor...". O Salvador e a sua vinda revestem-se de mistério, de algo transcendente: Ele é "Senhor", "Rei", "Cristo", "Novos Céus", o "Encoberto", "o sopro incerto", é um "grande anseio que Deus fez" e, finalmente, ele virá "da névoa e da saudade..." Ele é do passado, pois vem lá dos confins do tempo ("Sonho das eras português"), é do presente, pois é o "anseio" que enche o coração do povo português, mas é sobretudo do futuro ("quando? Quando?"...).

A expressividade dos recursos estilísticos utilizados:

Há no poema um nítido tom dramático, criado não apenas pela emoção que o sujeito lírico põe na sua ansiedade por essa "esperança amor" (notar a expressividade deste duplo substantivo que já sugere a concretização do anseio do poeta), mas também pela personificação do "Encoberto" através de todo o poema ("tu", "te", "virás", etc.). Se há emoção, se há personagens (o eu e o tu), há drama. São, aliás, bem evidentes as tendências dramáticas em toda a obra de Pessoa. A relação eu-tu está patente em todas as estrofes do poema.

D. Sebastião, Rei de Portugal

O sujeito de enunciação é o próprio D. Sebastião. Este apresenta-nos algumas características da sua personalidade.

Louco porque quis grandeza, quis ir alem, ultrapassar os limites.

Personificação da Sorte como uma entidade que dirige os destinos e que nao concede a sua graça aos audazes.

Por isso, apela às gerações seguintes para lhe seguirem o exemplo. D. Sebastião acredita que o Homem deve ser um pouco louco para conseguir o que deseja, ou seja, deve lutar por aquilo que quer de forma ambiciosa, caso contrário nada mais será do que " (...) a besta sadia, / Cadáver adiado que procria"(vv.9-10):

Nevoeiro

Escrito em 1918, o poema, todo ele se gasta em descrever a situação deprimente da nação, no momento presente, o presente durativo que sugere a continuidade, a permanência arrastada da crise.

A forma verbal "é", usada oito vezes, foca o problema do ser (tão do agrado de Pessoa), no seu sentido mais profundo de existência e essência (não interessava apenas que Portugal existisse, mas que existisse em grandeza).

De notar ainda o aspecto durativo da expressão "é Portugal a entristecer", dando a ideia de uma nação a descer progressivamente do cume a que se elevara com os descobrimentos, apagando-se agora no marasmo do esquecimento.

É também expressiva a comparação "brilho sem luz... como o que o fogo fátuo encerra", realçando a ilusão de algum brilho ocasional.

O poeta aponta a crise generalizada na nação, uma crise sobretudo de ordem moral, que se projecta em vários aspectos:

Para realçar esta face negativa de Portugal, o poeta usou e repetiu palavras e expressões de valor negativo: "Nem" (quatro vezes), "sem" (duas vezes), "Ninguém" (duas vezes), "nada", "Tudo é incerto", "Tudo é disperso". Note-se que "ninguém" e "tudo" se repetem anaforicamente em pares de versos (7 e 8; 11 e 12), de evidente paralelismo sintáctico e semântico, o que aumenta a sua expressividade: o segundo verso de cada par é um sublinhar, um acentuar do sentido do primeiro.

Expressões antitéticas, como: "Nem rei nem lei, nem paz nem guerra"; "fulgor baço"; "Brilho sem luz"; "Nem o que é mal nem o que é bem"; "Que ânsia distante perto chora?"; "Tudo é disperso, nada é inteiro".

O estado lastimável da nação é logo sugerido pelo título "Nevoeiro", palavra que é repetida no penúltimo verso: "Ó Portugal, hoje és nevoeiro...". Mas se nevoeiro aponta para escuridão, pode também sugerir a mensagem misteriosa que vem da lenda popular "Ele virá num dia de nevoeiro". E então apontará para esperança. A palavra "nevoeiro" é, pois, a ponte que oferece passagem para o lado positivo da mensagem poética, aspecto que é mais claramente sugerido no 10.º e no último versos. Notar a colocação entre parênteses do 10.º verso ("Que ânsia distante perto chora?"), certamente para sugerir que, embora encaixado dentro do conteúdo negativo da mensagem, já está a abrir perspectivas de um futuro radiante. Daí o apelo final do poeta, precisamente no verso final: "É a hora!" E note-se que assim como o verso 10.º estava destacado por meio de parênteses, também este ultimo está destacado dos outros, por separação, à maneira da finda da poesia medieval. O poeta pretendeu acentuar a antítese entre o desânimo nacional do presente e a esperança de um futuro próximo.

A ideologia sebastianista está nitidamente delineada na própria estrutura da mensagem poética. O sebastianismo manifesta-se sempre numa crise, num momento de desânimo nacional, em que o povo, não tendo mais nada a que se agarrar, se agarra a um mito. Ora, vimos, ao analisar o poema, as duas faces do sebastianismo: o desânimo nacional e uma ânsia instintiva da vinda de um salvador. "É a Hora!" - exclama o poeta, é o momento de uma nova Índia, que se abre no horizonte do povo português; é o Quinto Império, é o super-Portugal de que Pessoa seria o super-Poeta. Prestemos atenção à expressão latina, "Valete, Fratres". Se bem que ela não esteja aqui como fecho do poema, mas como fecho da obra, vem insinuar ainda mais o sentido sebastianista, mesmo isotérico, do poema. Com efeito, essa expressão latina, que podemos traduzir por "felicidades, irmãos", era a despedida normal dos membros de certas sociedades secretas e dos frades das ordens religiosas. Este "Valete, Fratres", no contexto da Mensagem, poderá traduzir-se por "força, irmãos", vamos, portugueses, lutemos com coragem por um Novo Portugal.

O Quinto Império

"Triste de quem..." - a mesma noção já encontrada em O das Quinas de que ser feliz é uma infelicidade porque se vive maquinalmente e não para o sonho ou para os cometimentos.

"a lição da raiz - ter por vida a sepultura" - na própria essência material do homem está, desde a sua origem, a inevitabilidade da morte.

"passados os quatro tempos do ser que sonhou" - referência ao rei assírio Nabucodonosor que, segundo a Bíblia, sonhou com uma estátua de quatro metais que o profeta Daniel interpretou como uma premonição de quatro grandes impérios sucessivos, dos quais o seu era cronologicamente o primeiro.

"que no atro da erma noite começou" - que começou nas trevas da noite deserta.

"Grécia, Roma, Cristandade, Europa" - os quatro impérios que Pessoa pensava ajustarem-se ao sonho do rei assírio.

"vão para onde vai toda a idade" - envelhecem e morrem; desaparecem.

"Quem vem viver a verdade?" - o Quinto Império sonhado por pessoa é uma abstracção de Luz (ou Verdade, ou Cultura- todos os termos são, nesta acepção, equivalentes). A frase deve ser lida "Quem vem viver o Quinto Império?".

"Quem vem viver a verdade que morreu Dom Sebastião?" - completa, a frase torna-se uma interrogação meramente retórica, a menos que se tome "que" na acepção de "porque" ou "para a qual". Nesse caso a frase torna-se "Quem viver a verdade (do Quinto Império) para a qual D.Sebastião morreu".