Álvaro de Campos: Lisbon Revisited
| Não: Não quero nada. Já disse que não quero nada. Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas! Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) - Das ciências, das artes, da civilização moderna! Que mal fiz eu aos meus deuses todos? Se têm a verdade, guardem-a! Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram? Não me macem, por amor de Deus! Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fôsse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência! Vão para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sòzinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos? Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sòzinho. Já disse que sou sòzinho! Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! Ó céu azul - o mesmo da minha infância - Eterna verdade vazia e perfeita! Ó macio Tejo ancestral e mudo, Pequena verdade onde o céu se reflete! Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo… E enquanto tada o Abismo e o Silêncio quero estar sòzinho! Álvaro de Campos |
Conclui-se que:
- Todo o poema roda em torno do pessimismo, do abatimento, da desilusão, à mistura com a irrequietude, a nostalgia, a negatividade, a angústia e a revolta (vv.3, 6-7, 14, 16, 18…) o que é perfeitamente visível tanto a nível do conteúdo como da sua conjugação com o nível da expressão;
- O poeta começa por caracterizar o estado de alma em que se encontra mergulhado (vv.1 a 30), recorrendo a imagens sugestivas, jogando com alterações e paradoxos, com anáforas e musicalidade expressivas, com deslocações sintácticas e frases de estruturação deficiente. A visão que ele transmite de si mesmo é a de um de derrotismo profundamente enraizado: nada o prende a nada (v.1 - notar o jogo com o advérbio de negacão nada/nada), todas as portas lhe foram fechadas (v.8), a todas as hipóteses plausíveis que se lhe puseram foram corridas as cortinas (v.9), a porta que lhe foi indicada não existe (v.10 - notar a simbologia de portas e janelas, isto é, de aberturas para o mundo exterior);
- O derrotismo do poeta é motivado pela ausência de soluções para a angústia existencial que o aflige - a sua angústia sem leme, para a qual ele não conhece nem destino nem futuro (v.18); ele, um náufrago à procura de uma lha no Sul impossível (notar a importância da aliteração em s e da maíuscula em Sul, para exprimir o seu desejo de realizacão);
- O poeta mostra-se insatisfeito ("Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo" - v.2), um angustiado que se revolve em ânsias desmedidas ("Anseo com uma angústia de fome de carne/O que não se que seja -/Definidamente pelo indefinido…" - notar a insistência na preposição de, a aliteração em s, a construção paradoxal, a expressividade das reticências - vv.3 a 5);
- No seu íntimo, tudo se desmorona, as últimas ilusões deixaram de ter sentido (vv.27-28), o seu estado de alma caracteriza-se pelo cansaço (v.16), pelo tédio (v.17), pela desconexão (v.15);
- Ele arquitectou no passado lindos sonhos, em "estradas e atalhos de florestas longíquas" (v.25), e aí supôs o seu ser (v.26) - mas tudo inutilmente: "o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas" (v.24 - notar a metáfora e a expressividade do parêntesis, como que estando a revelar-se um segredo grave);
- Os sonhos se tornaram falsos logo ao serem sonhados (v.13) e a vida o fartar (v.14) - a vida antes de ser verdadeiramente vida, ainda no estado de sonho, de idealização e desejo… E o qualificativo esfaceladas em Deus (v.30), referenciado às suas coortes por exsrr, elucida quanto ao carácter metafísco dos motivos que estão na origem do negativismo do poeta Deus e o Absoluto, a sua alma esfacelada por força da consciênca, da dor de pensar;
- Após o v.31, e até final do poema, todas as estrofes (à excepção de uma) se iniciam pela asserção "Outra vez te revejo" (vv.31, 40, 42, 49, 54) referida à Cidade da minha infância (v.32), Lisboa, Tejo e tudo (v.42);
- A Lisboa do presente encontra-se a anos-luz da Lisboa de outrora. Não que isso signfique que ela se tenha alterado num ápice sequer - e sobre isso do texto nada se infere. Só que a Lisboa de outrora que o poeta revisita é a Lisboa da infância, a sua própra infância simbolizada em Lisboa, e o presente asfixia-o, porque se caracteriza pelo estado de consciência, de racionalidade e dor de pensar.



