Alberto Caeiro: O Guardador de Rebanhos IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

O presente poema insere-se na linha daquilo por que Caeiro se pretende fazer passar - por um pastor ingénuo e simples, que guarda o rebanho dos pensamenlos feitos sensações (vv.I a 3 - notar as metáforas). Para ele, os pensamentos e as sensações confundem-se. Diz que pensa "com os olhos e com os ouvidos/E com as mãos e os pés/E com o nariz e a boca" (vv.4 a 6 - notar o polissíndeto, a disposição anafórica e a sinestesia, para exprimir a complexidade de sensações com que o pensamemo se identifica). Pensar… é ver e cheirar; saber o sentido… é comer um fruto (vv.7-8), colhido da natureza.

Sendo o pensamemo isso (por isso - v.9), é desse modo que o poeta sente a realidade (v.13), sabe a verdade, é feliz (v.14 - notar a gradação). Mas esses sentir, saber e ser ("isso") tem o seu ambiente próprio - que é uma vez mais o do bucolismo, o da serenidade da natureza: "num dia de calor", deitado "ao comprido na erva", de "olhos quentes" fechados (sensíveis, atentos a tudo, permeáveis às sensações - vv.9 a 12).

Só um senão parece atravessar-se: o de, por gozar tanto esse dia de calor, o poeta se sentir "triste de gozá-lo tanto" (v.10).

Numa primeira e mais saliente impressão, o poeta pretenderá dizer que goza até ao limite do possivel, admitindo a variação em grau das sensaçõe s- da tristeza ao gozo, do gozo à tristeza outra vez. Mas, numa observação mais atenta, infere-se ainda o apelo à moderação (felicidade), a condenação de todo esse excesso de sensações. E isso compreende-se se se tiver em conta que, a partir de determinada intensidade, as sensações passam de agradáveis a desagradáveis, de prazer a dor.

Aliás, nesta linha de convite à fruição moderada das sensações e de combate aos excessos (que gerarão infelicidade), será interessante reparar na estrutura do texto. Nota-se que ele possui um rigor lógico muito cuidado, e as três estrofes que o constituem, dispostas simetricamente (ou seja: possuindo a primeira e a última o mesmo número de versos, seis, e a intermédia dois), sugerem esse mesmo apelo ao equilibrio - o que acontece igualmente com o número par de versos das estrofes.

Para além de tudo isto, Caeiro aparece-nos empenhado na descoberta de uma possibilidade de solução para o profundo problema de Pessoa. O desdobramento da personalidade, operado por este último, ficcionando outras personalidades, tem nessa procura de solução uma das finalidades principais. Através da tentativa aqui operada, essa busca de solução é feita numa proposta de bucolismo. Só que se trata de uma tentativa logo antevista como inútil para o poeta triste - triste por ansiar tão profundamente essa solução e não conseguir realizá-la.

É, por fim, empenhado nessa realidade (a do bucolismo) que o poeta sente todo o corpo deitado: seria (caso se concretizasse a solução Caeiro, para Pessoa) o ponto de equilíbrio recuperado - saber a verdade e ser feliz (v.14). É isso que Pessoa a todo o momento mostra procurar, por si mesmo e recorrendo às mais díspares personalidades e situações. Não encontrando o que procura, continua mesmo assim a procurar - teimosamente.