José Régio

Ignoto Deo

O sujeito lírico procurou longamente encontrar Deus sem êxito. A descoberta desse ser era essencial à sua vida (v.6).

A vontade de saber > O amor implicado nessa vontade > A anulação de todos os esforços.

O apelo da transcendência, a necessidade de resposta à angústia da existência, vazio e solidão.

Como ser humano, era inevitável a tentativa de responder a essas forças.

As armas humanas: o saber e o amor; armas divinas por dedução, o silêncio e a presença obsessiva.

Crítica à invocação do nome de Deus em vão, às formas pelas quais se materializa a imagem de Deus e possivelmente ao culto ritualista.

A luta, o egoísmo, a ânsia do Além, a revolta inútil, o limitado versus o ilimitado, o tratamento de Deus por "tu" e o tormento de Deus.

Ignoto Deo era na Antiguidade um monumento consagrado a um qualquer Deus desconhecido, que ainda não tivesse sido descoberto e por isso não tinha culto. Deus será sempre um ser desconhecido para os homens no sentido de que não cabe nos limites da sua razão; perante Deus, apenas o silêncio adorador e humilde.

Poema do Siléncio

A introspecção e a reflexão como ponto de partida para o diálogo entre o Eu, o homem, e o Tu, Deus.

O Eu supostamente agnóstico e descrente "Senhor meu Deus em que não creio".

A busca incessante e angustiada do divino.

A revolta permanente do Eu e a megalomania a ela subjacente "Mas o meu Sonho megalómano é maior/Que a própria dor/De compreender como é supremamente egoísta/A minha máxima conquista!".

A morte, o silêncio, como o ponto final do seu viver sofrido e angustiado.

Cântico Negro

Eu = cruzo os braços, Não acompanho ninguém, Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, Eu tenho a minha Loucura…

Os outros = seguros, sangue velho dos avós, amais o que é fácil, Tendes estradas, Tendes jardins, Tendes canteiros, Tendes regras, e tratados…

Ser livre, ama os perigos, a aventura, o original, os riscos…

Estrofes e métrica irregulares, versos rimados ao lado de versos soltos.

Pretende seguir um caminho próprio, independente de regras, sujeito a riscos, original e difícil, porque ainda não trilhado.

O poema parece ser a condensação em poesia do que afirmou no célebre artigo intitulado "Literatura viva", no qual explicitou as duas grandes qualidades da arte, segundo a sua opinião: originalidade e sinceridade.

Conduz-se apenas por si próprio, com o bem e o mal que tal opção representa (Deus e o Diabo podem ser metáforas do Bem e do Mal); rebelde.

Odeia os que lhe querem ditar leis (entre Deus e o Diabo não há amor nenhum); rebelde.

É a agitação, a rebeldia.

Não segue o caminho que os outros querem que siga, sigo o meu próprio caminho.

Pedido e recusa terminante desse pedido; razões da recusa; clara distinção entre o poeta e os outros com alguma ironia; conclusão, retomando o verso inicial: "Vem por aqui", "- Sei que não vou por aí!" = recusa total. Em termos de início de versos: "Vem…", e "Se" (duas vezes), "Ide!", "Ah".

Cântico Negro = cântico rebelde, afirmação de individualidade e originalidade, recusa de normas preestabelecidas.

O Papão

Estrutura dialógica, nomeação do receptor pela apóstrofe, oposição antagónica dos interlocutores.

Campos semânticos: o eu e o Papão o medo, o imanente e o transcendente, o papel da palavra.

A palavra é interrogação, falar é nomear, a corrente de consciência formaliza-se pela palavra.

Desabafo, confusão do estado de espírito do sujeito lírico. Estes dados retardam naturalmente a estrutura dramática do texto.

A ambiguidade do discurso serve para evidenciar o distanciamento do sujeito poético em relação ao Papão, numa atitude crítica e irónica. Tratamento por "Ele", o riso que provoca a mudez, o medo que impede a palavra, o riso do Papão não podia ser igual ao riso dos outros…

O conflito iniciou-se na consciência e teria de terminar na consciência. 0 espelho é o símbolo habitual da revelação, e, uma vez mais, o poeta a ele recorreu para desmontar o equívoco do disfarce. O texto é, pois, a expressão de um diálogo do eu consigo próprio.