Os Barcos vindos dos Açores para a Madeira entre 1811 e 1815

A Economia Madeirense no Século XIX

Durante todo o século XIX a Madeira atravessou uma crise económica e social, que se agudizou no último quartel: deu-se o declínio do comércio do vinho, houve falta de trabalho devido ao retraimento dos capitais, que por sua vez gerou o estagnamento do comércio. Os impostos com que se sobrecarregavam as propriedades e as importações, os preços pouco competitivos do açúcar da Madeira face ao brasileiro - a que se junta a não prorrogação da lei que isentava de direitos o nosso açúcar nos mercados continentais e açorianos, o imposto sobre o carvão, o sobrepovoamento e os contratos de colonia, contribuíram também para a crise.

Devido ao facto de toda a terra arável da ilha ser aproveitada para o cultivo do vinho e da cana de açúcar, principais fontes de riqueza económica, muitos dos produtos para alimentação da população como o trigo e o milho, para além de variadíssimos outros tinham de vir do exterior. Esses produtos eram transportados em barcos vindos de todas as partes do mundo que tinham a Madeira na sua rota. Dos Açores vinham também muitos barcos, uns directamente, outros que faziam escala lá e outros que passavam pela Madeira em direcção a outras partes e deixavam produtos na ilha.

A Economia Açoreana no Século XIX

A posição estratégica das ilhas açoreanas foi muito importante para o seu desenvolvimento económico pois fez com que elas fossem quase que portos de escala obrigatória. De tudo o que se produziu nas ilhas e que foi tendo importância na sua economia - que passou pelas fases do pastel, do vinho, da fruta, do tabaco e do chá - os cereais, especialmente o milho e o trigo, permaneceram como os produtos de exportação por excelência. As ilhas foram tendo importância sucessiva conforme os produtos que produziam atingiam o auge. Na última fase acabam por dominar São Miguel e Ponta Delgada.

O Porto do Funchal

Sempre que entrava ou saía um barco a Fortaleza da Pontinha avisava o oficial encarregado do registo. O navio só comunicava com terra depois de ter recebido a visita da saúde, do governo e da alfândega. Depois de ter entrado não podia sair sem ser visitado e uma vez essa visita feita não podia mais comunicar com terra. A "visita de saúde" tinha procedência sobre as outras mas todas visavam evitar o contrabando, as doenças contagiosas e as ameaças de inimigos camuflados. Mas essas medidas não eram muito eficazes: os capitães, sempre que podiam, escondiam as doenças que tinham a bordo e as declarações da carga trazida eram facilmente falsificadas. O contrabando era bastante vulgar tanto mais que passavam por este porto navios de todas as proveniências e especialmente os que faziam a carreira do Brasil.

Movimento de barcos

Entre 1 de Janeiro de 1811 e 31 de Dezembro de 1815 entraram no porto do Funchal 1715 barcos assim distribuídos: 1811 - 402; 1812 - 360; 1813 - 295; 1814 - 273 e 1815 - 385. Das Ilhas dos Açores aportaram ao Funchal 163 barcos ou seja 9,5% do total de barcos registados.

As nacionalidades eram diversas, com predominância clara dos portugueses:

Nacionalidades

Os anos de maior movimento foram 1811, 1813 e 1814 e os meses de menor afluência ao longo destes anos foram Janeiro, Maio, Novembro e Dezembro, como se comprova no quadro abaixo, provavelmente devido ao facto de o mar não apresentar condições de navegabilidade e também à não existência de grãos para transportar:

1811 1812 1813 1814 1815 Totais
Janeiro 1 - 4 1 1 7
Fevereiro 1 4 1 4 3 13
Março - - 4 7 5 16
Abril 3 4 9 - 2 18
Maio 3 - 1 5 - 9
Junho 3 2 5 3 3 16
Julho 7 3 2 4 - 16
Agosto 7 5 3 2 5 22
Setembro 6 3 2 3 4 18
Outubro 6 3 3 2 1 15
Novembro - 1 - 3 2 6
Dezembro 1 - 2 2 2 7
Totais 38 25 36 36 28 163

Destes barcos a grande maioria veio de São Miguel (49%), segue-se a Terceira (14,1%) e depois: as Flores (9,2%); Santa Maria (8,6%); São Jorge e Faial (8%) e finalmente com muito pouco volume de embarcações com destino a esta ilha aparecem as ilhas de Graciosa (2,5%) e Pico (0,6%), conforme dados exposto no seguinte gráfico:

Ilhas

Os barcos que transportavam mercadorias e passageiros entre as ilhas açoreanas e a Madeira tinham várias designações e consequentemente características diversas. Eram: bergantins, bergantins escuna, brigues, chalupas, escunas, galeotas, galeras, iates e sumacas:

Tipos de barco

Movimento de Passageiros

O volume de passageiros é equivalente ao das embarcações, tendo vindo para a Madeira neste período um total de 494 pessoas. Seis destes passageiros iam no Bergantim S. José e Indústria que tocou este porto a 5 de Outubro de 1811, vindo de São Miguel rumo a África, podem não ter ficado na ilha e seguido viagem, conforme ficha n.º 32 - Anexo 1). Deve salientar-se que também 25 pessoas das transportadas não devem ter ficado na ilha uma vez que se tratava de espanhóis feitos prisioneiros pelos franceses e que aportaram a esta ilha no dia 5 de Abril de 1813 a bordo da escuna Carlota conforme a ficha n.º 74 (Anexo 1). Não foi incluído neste número dois degredados que iam a caminho de Cabo Verde, chegados a bordo do Iate Conceição no dia 17 de Dezembro de 1814 e que aqui devem ter estado algum tempo aguardando uma embarcação que os levasse até lá (ficha n.º 135 - Anexo 1). O gráfico abaixo expressa o volume de passageiros:

Volume de passageiros

Os Agentes Económicos

As mercadorias vinham consignadas a determinados agentes económicos ou ao próprio comandante que depois as colocava no comércio local. As mercadorias consignadas ao próprio capitão representam 7,5% do total e a lastro vinham dois barcos.

Os agentes económicos a quem vinham consignadas as mercadorias eram:

São Miguel Terceira São Jorge Faial Pico Flores Santa Maria Graciosa Total
Alexandre Vieira 1 2 3
António dos Reis 2 2
António Joaquim Teles 1 6 7
António José de Rezende 1 2 3
Carlos da Silva Lopes 1 1
Correia de França e C.ª 1 1 2
Diogo Searle 1 1
Dr. António José Malheiro 1 1
Francisco António Soares 1 1
Francisco João Moniz 2 2
Francisco José da Silveira 2 1 3
Heiss e C.ª 1 1
Henrique Correia e C.ª 2 2
Henrique José de Coito 1 2 3
J. C. Smith 1 1
Jerónimo Ribeiro dos Santos 1 1
João António Correia 1 1
João Heios (?) 1 1
João Inácio (João Inácio da Silveira) 3 3
João Jacinto Pestana 5 1 6
Joaquim Coelho de Myrells 25 2 1 1 29
Joaquim Pestana 2 2
John Anglin (João Angly) 13 3 5 2 23
José de Oliveira 1 1
Leal e C.ª 1 1
Manuel José de Oliveira 3 6 9
Manuel José Teixeira 1 1
Miguel Ferreira Jardim 1 1 2
Monteiro e C.ª 1 1 2
Monteiro H. N. R (?) 1 1
Passageiro (Capitão-Mor das Flores) 1 1
Paulo Malheiro de Mello 1 1
Pedro João de Sousa 1 1
Roque Caetano de Araújo 1 1
R e R Symsons (R. H. Sigmonds) 1 1 2
Severiano José Moniz 1 1

destacando-se claramente Joaquim Coelho de Myrells e John Anglin (João Angly).

As Mercadorias

As mercadorias vinham principalmente de São Miguel e a seguir da Terceira e do Faial (Anexo 2).

O quadro seguinte expressa as mercadorias transportadas e o número de navios que as trouxeram até esta ilha:


São Miguel

Terceira

São Jorge

Faial

Pico

Flores

Santa Maria

Graciosa
Açúcar 1
Aduelas 7 1 2 1
Aguardente 8 3 2 1 1
Alcatrão 3
Alpiste 1
Amêndoas 1
Arcos de ferro 1
Arcos de pau 1
Arenques de fumo 4 2
Arroz 3 2
Aves Alg. Alg. Alg.
Azeite 3 1
Azeite de peixe 1
Bacalhau 6 2
Batata 2 1
Bezerra 1
Biscoito 1 1
Bois 4 2 10 1 10 4 1
Botas 1
Breu 2
Burros 3 1 1 1
Cabras 4 1 2 3
Cadeiras 2
Cachimbos 1
Café 1 1
Cantaria 2 1
Carne 5 1
Carneiros 2 1 5 1 5 5 2
Cavalas 3
Cavalos 6 1 1 1
Cera 1
Cevada 6 4 2 3 2
Chá 2 1
Chaprões 2

São Miguel

Terceira

São Jorge

Faial

Pico

Flores

Santa Maria

Graciosa
Cordagem 1
Couros 3 1 1 1
Ervilhas 1 1
Espeques 1
Farinha 3 5
Favas 12 4 2 2 6 1
Fazenda 1 1
Feijão 16 1 1 1 1
Fruta 7 1 1
Galinhas 2 2 1 4 1 1
Ganga 1
Genebra 1 2
Grão 1
Lajes 1
Laranjas 13 3
Lenha 1
Limão 2
Linho 1
Lona 1
Louça 2 1
Madeira de cedro - 1
Manteiga 3 1
Mastaréus 1
Milho 50 8 3 3 1 4 2
Móveis 1 1
Óleo (de baleia?) 1
Ovelhas 1 1 2
Pás de remos 1
Passas 1
Peixe 7 1
Pêssegos 1
Pimenta da Índia 1
Pinho 1 1
Porco (carne) 1 1 1
Porcos 8 3 6 1 12 4 2
Pregos 3
Presunto 1
Queijo 1
Remos 1
Sabão 2
Sal 1
Salmão 2

São Miguel

Terceira

São Jorge

Faial

Pico

Flores

Santa Maria

Graciosa
Sapatos 1
Sardinhas 1
Sebo 1
Semilha 3
Sola 6 1 1
Tabuado 5 2
Tábuas 4
Toucinho 2 2 1
Travetas 4
Trigo 19 15 10 6 1
Vaca (carne) 5 1 3
Vaca e porco 1
Vacas 2 1
Velas 1 1 1 5
Vinho 7 3 2
Vitela 1 1

O transporte de alguns produtos e de gado realizou-se com bastante frequência como expressa o seguinte gráfico:

Transporte de produtos

Os Despachos de Saúde

Os Despachos de Saúde tinham sempre a mesma fórmula desde que a Carta de Saúde estivesse em ordem e não fosse declarada doença a bordo: "Apresentou Carta de Saúde, sendo-lhe deferido juramento nada declarou contra a mesma". Assinavam o Escrivão da Câmara ou no caso de impossibilidade deste o escrevente ajuramentado.

Durante estes cinco anos foram declaradas as seguintes anomalias:

Notas

  1. Cópia da Portaria: Conformando-nos com o parecer do Inspector Geral, e mais oficiais de Saúde, o Guarda-Bandeira da Visita, desembarace a Escuna Dois Amigos, vinda de São Miguel, tomando o juramento do Capitão, em como não fez escala em parte alguma, nem trouxe mais que oito pessoas de tripulação, visto não se achar algum dos Guardas Mores da Saúde nesta cidade. Palácio do Governo em nove de Setembro de mil oitocentos e catorze. Com duas rubricas de dois membros do Excelentíssimo Governo Interino deste Estado.

Bibliografia

Câmara Municipal do Funchal, Livros 601 e 602 de Entrada de Navios, AHM.

SERRÃO, Joel, Dicionário de História de Portugal, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1975.

SOUSA, João José Abreu de, O Movimento do Porto do Funchal e a Conjuntura da Madeira de 1727 a 1810, Alguns Aspectos, Funchal, DRAC, 1989.