Álvaro de Campos: Esta Velha Angústia

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
Júpiter, Jeová, a Humanidade -
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Todo o texto se desenvolve em torno da expressão da angústia do poeta "Esta velha angústia" - é a temática principal. O poeta pretende comunicar que a angústia que o consome é real e se vem a desenvolver na profundidade da sua alma:

Tudo no poema se destina a reforçar, a nível da expressão, o desabafo lamentoso do poeta, admirado de corno foi possível chegar à situação em que se encontra. Que é do menino da casa? O menino, centro das atenções na casa? - "Está maluco", "Está maluco", "Está maluco" (vv. 25, 27, 28), desacolheu-se (v. 24).

A alma do poeta já não comporta mais angústia. O poeta já não a controla por mais tempo, não a pode esconder, tem de exteriorizar o que sente e desejar que o "coração de vidro pintado" estale (v. 38). E, em disposição anafórica, o poeta enumera as consequências desse transbordar: lágrimas, grandes imaginações, sonhos, grandes emoções (vv. 4 a 6). É um estado dc pré-demência, de indefinição; é "estar entre" (v. 11), "ser quase" (v. 12), "poder ser que..." (v. 13).

Repare-se no tom gradativo, na disposição anafórica, na insistência nos demonstrativos este... Este... Este... Isto (vv. 11 a 14) - e note-se como o último pronome tem valor indefinido, exprimindo a dificuldade que o poeta sente em exteriorizar o seu estado de alma), nas frases por completar, exprimindo hesitação, incerteza, ansiedade (repare-se nas reticências).

Considera-se possuído de um estado de loucura que o faz sofrer. Daí desejar endoidecer deveras (v. 10) ser um louco com direito a manicómio, reconhecido por todos como louco (como alguém - v. 15) já que à sua loucura ninguém atribui o estatuto de loucura. Ele é louco mas consciente, quando a loucura pressuporá a inconsciência por que o poeta anseia.

A consciência que o domina e faz sofrer leva-o a ansiar uma outra solução para o seu caso mas isso e impossível porque ele já não é mais a inconsciência da infância, fase da vida anterior à idade da razão.

A religião "Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer" (v. 29) seria uma possibilidade de solução para o seu caso, mas não será viável. As coisas têm para cada um o valor que por cada um lhes é atribuído (v. 37).

Encontra-se cansado de tudo, descrente de tudo - a angústia, a velha angústia de há séculos, que transbordou, tomou conta dele todo.

Para o seu coração de vidro pintado (frágil mas pintado, de transparência oculta) nenhuma possibilidade seria mais natural do que estalar, partir-se, destruir-se, desaparecer.