Camões: Lírica

A lírica é auto-confessional e o amor é sempre o motor para o aperfeiçoamento do poeta. O amor consubstancia-se na imagem luminosa de uma mulher. Os Lusíadas são narrativa e alegoria, seguindo-se um determinado caminho chega-se à divindade, à mulher, ao possuir da mulher, a lírica nunca chega lá mas apenas ao encontro final do espírito. A lírica como discurso do eu é muito mais confessional e intimista em relação à epopeia, daí a possibilidade da construção que não é tão utópica e distante como na lírica.

Cá nesta Babilónia donde mana

Dois lugares míticos: Babilónia (mal) e Sião (Paraíso perdido - bem; idade de ouro).

Tempo do poeta; corrupção; governado pelo acaso; injustiça; fortuna; mal governado pela matéria; ilusão; mudanças; efemeridade; matéria; amor degradado, carnal; erro; cegueira; labirinto; desonra; tirania; cepticismo; descrença; tirania; poder despótico, injusto; cobiça; vileza.

Tempo mítico, ideal; estabilidade; eternidade; espírito; bem; puro Amor; verdade; luz; glória.

Na Ribeira do Eufrates assentado

Rio da Babilónia. Novamente a oposição Babel/Sião. O canto como sublimação, como forma de ultrapassar o mal, forma de se projectar numa Sião futura.

Canção X

É com o papel que ele desabafa suas penas, quer fazer um canto em que cante seu mal e se faça ouvir, ele nasceu para errar, o seu nascimento é maldito, a dor é tão grande que ele terá de gritar, a esperança é um logro, o amor e a fortuna são agentes cegos do mal. I. C. - amor deificado e a fortuna é uma força que é cega e está para além do próprio desejo de Deus, que lhe escapa. Quando ele voltou a nascer foi logo infeliz, o fatalismo. Até o livre-arbítrio lhe tiraram. Forçado pelo destino, pelo amor, pelas forças do mar a seguir determinados passos. O canto como meio de aplacar o sofrimento. A esperança é uma ilusão, o amor e a fortuna conduzem o indivíduo à sepultura. Sempre uma marcha para o pior. Circe - desde o berço e atravessando a vida dele sempre o condicionou, metamorfose: "Um mover d'olhos brando e piadoso". A amada é Circe, a mulher que se transforma e transforma. Ela tinha forma humana mas era espelho da divindade. Os olhos dela irradiavam luz. Ela é venenosa porque o faz apaixonar-se. O poeta esperou sempre conseguir que o amor lhe trouxesse felicidade mas só lhe trouxe desenganos, ele foi levado à desilusão.

Doces lembranças da passada Glória

Confronto entre o bem passado e o mal presente. O destino faz o mal. A única forma de sublimar a consciência do mal é conhecer o bem através da memória. Quatro idades: Ouro (Heróis, Glória), Prata (espiritualidade sem função guerreira), Bronze e Ferro. Ao longo delas degradação, a nossa seria a mais materialista. Um herói viria restaurar a verdade perdida - messanismo e sebastianismo. O único remédio para os males deste mundo é a lembrança, é a invocação. É só pela ausência que o verdadeiro amor pode ser vivido. A amada representa um espelho da divindade, ser do mundo essencial de Sião para que ao lembrar-se dela o poeta se aperfeiçoe para se identificar progressivamente com ela.

O mal presente e o bem passado. A fatalidade, a memória. Fora = tempo do Ser; passara = tempo do passar; ser = permanente; passar = momentâneo, da mudança, humano, da perceptibilidade do ser humano. O bem está para além da compreensão do poeta, não o pode apreender totalmente mas translada-o. Deseja voltar a nascer para poder recomeçar uma nova vida.

Erros meus, má fortuna, amor ardente

Os seus próprios erros, a fortuna, o amor se juntaram para o perder = desilusão. Perdido, errou sempre, sem leme, sem rumo no discurso dos anos - no tempo que leva à morte.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

A mudança é desordenada, ao longo dos tempos vai havendo diversas mudanças, tempo de eternidade e de perfeição. Negativismo extremo por parte do poeta. O tempo da natureza não é o do poeta, o da natureza é ciclíco, o dele é humano, irreversível.

Oh! Como se me alonga de ano em ano

Fugacidade e efemeridade, desencanto, o poeta está farto até da vida. A vida dele é breve e vã, não tem sentido. A vivência, a descrença na experiência.

O dia em que nasci moura e pereça

O seu nascimento foi maldito. O fatalismo. Diferencia-se dos outros homens até na desgraça. Ele é superior, o seu nascimento foi apocalíptico. O eclipse corresponde ao fim do mundo, era uma intenção divina.

Tema

Recusa do dia em que nasceu. Desconcerto.

Divisão em partes:

Recursos estilísticos

Quem pode ser no mundo tão quieto

A ideia de que neste mundo os criminosos é que têm sorte. O mundo devia ser justo, é governado não por Deus mas por forças más.

Sôbolos rios…

A lembrança da amada é o motivo do canto. Sentiu na alma o seu exilio, tem a alma cheia de mágoas. Sente a realidade de uma forma diferente, é diferente a sua atitude perante a sua realidade. Há um canto de Babilónia e um mundo de Sião. O poeta não vai profanar Sião ao dar um uso utilitário ao seu canto, o seu canto é de cariz diferente, ele não canta para minimizar o peso do trabalho, o canto dele é diferente. As distâncias entre Sião e Babilónia são só simbólicas. É a morte que torna possível a ideia. Nunca se cansará para chegar á jerusalém celeste. A tristeza que ele sente por estar exilado não é motivo para o seu canto. Se ele fizer poemas que não sejam dignificantes prefere que a voz congele no peito. Ele prefere que tudo aconteça a ter de profanar o ideal. A sabedoria e o conhecimento dos textos sagrados levam a Sião. A alma pode servir-nos para voar, para subirmos à pátria divina e também pode não servir para isso. A amada, aquilo que ela representa, é que deve ser amada e não a pessoa em si. O arquétipo. Fala do seu tempo como um reino de confusão em que há uma inversão de valores. A terra é de dor, confusão e espanto. O amor é o agente da chegada ao mundo das essências. Nega os seus enganos anteriores pretendendo virar-se só para a Sião sagrada, quer libertar-se de tudo, da matéria e virar-se para o lugar verdadeiro. Não quer ser conhecido pelos escritos que não busquem essa perfeição. Pede ao Senhor de sião que o ajude e o inspire. Recusa pela mortificação da carne. A repressão dos pensamentos viciosos. O canto como forma de sublimar o mal e atingir a essência. O canto é o mediador.

O tempo acaba o ano, o mês e a hora

O tempo de Cronos que come os anos, os meses e as horas, que acaba com tudo. A saudade do tempo passado - "O tempo o mesmo tempo de si chora". Tem a esperança de ser correspondido. Pelo amor consegue deter o tempo. O tempo da degradação, da mudança, do discurso.

Amor co'a esperança já perdida

Já deu tudo ao amor, o amor que aparece como uma divindade. Podemos comparar com a cantiga de amor sobre a dama na ermida, há em ambos a sacralização do amor e a sua associação ao templo. Tom geral de sofrimento, de desespero total perante o mal que provoca o amor, o amor que destrói a glória, leva ao desejo de morrer e à dissolução da personalidade.

Aquela triste e leda madrugada

A madrugada é triste e leda. Comunga dos sentimentos do poeta e do amor também. O amor em Camões parece comunicar-se à natureza, é um amor cósmico. O amor é ele também uma mistura de tristeza e alegria. O poeta sente a saudade. O mal presente e o bem passado, o sofrimento de dor. O que resta é a lembrança e a memória do bem passado (a saudade). Só contemplando a mesma madrugada que testemunhou o seu amor se sente o poeta realizado. Só a aurora testemunhou a separação dos dois amantes. Mais uma vez os olhos - recorrência contínua em Camões "Ela só viu". A libertação das forças da vida e da luz dá-se com a madrugada.

Tema

Saudade pela partida da Amada; Separação.

Divisão em Partes

1º. momento 2º. momento
SUJEITO Poeta Poeta
OBJECTO Madrugada Separação
DESCRIÇÃO DO OBJECTO triste e leda,
cheia de mágoa
piedosa
lágrimas em fio,
palavras magoadas

Figuras de Estilo

A Hipérbole é utilizada para transmitir toda a dor que o poeta e a sua amada sentiram na hora da separação; a Antítese para demonstrar como aquela madrugada, apesar de muito bela e alegre, se transformou em tristeza por causa da separação; a Adjectivação transmite toda a beleza da madrugada e toda a tristeza que inundava os corações dos amantes.

Soneto. 14 versos distribuídos em 2 quadras e 2 tercetos. Versos decassílabos. Rima emparelhada, interpolada e cruzada.

Alegres campos, verdes arvoredos

Uma natureza luminosa, primaveril, alegre, consonante e outra agreste, caótica e dissonante. O poeta já se comprazeu com a beleza, agora já não se compraz, nada o consegue fazer esquecer a amada. O que brota dos campos regados pelas lágrimas é a saudade, a memória, a possibilidade de lembrar o tempo passado.

Amor "meu bem"
Ausência "saudades", "lembranças tristes"
Despedida "saudades de meu bem"
Dor "meu mal", "lágrimas saudosas"
Inverno "Claras e frescas águas de cristal"
Natureza 1ª. parte do poema (2 quadras e 1º. terceto)
Negro "tristes", "saudosas"
Olhos "olhos ledos", "me já não vedes como vistes"
Passado "me já não vedes como vistes"
Presente 1ª. parte do poema (2 quadras e 1º. terceto)
Recordações "lembranças tristes"
Saudade "lágrimas saudosas", "saudades de meu bem"

A fermosura desta fresca serra

Alegria e verdura é vida eterna. Claridade; frescura; águas de cristal, transparentes; suavidade; amenidade. Sem amor a vida não tem interesse e o poeta não é capaz de viver a vida sem a amada, não consegue ter alegria.

Tema

Saudade; ausência da amada.

O poema divide-se em duas partes ou momentos

A primeira parte do texto é constituída por uma descrição que se estrutura numa enumeração de elementos que constituem a paisagem e que são qualificados (até personificados) ora por adjectivos, ora por substantivos, ora por orações relativas:

Elementos da paisagem Caracterização
Adjectivos Substantivos Oração relativa
serra
castanheiros
caminhar dos ribeiros
mar
terra
esconder do sol pelos outeiros
recolher dos gados
nuvens
fresca
verdes
manso
rouco
estranha
derradeiros
branda
fermosura
sombra
som
guerra
donde toda a tristeza se desterra

Estrutura Formal do Texto e Recursos Estilísticos mais Relevantes

Alma minha gentil que te partiste

A amada parte triste desta vida. Este mundo é o mundo do mal. A amada é referida como a alma do poeta. O amor leva à fusão das almas. O sentimento dominante é sempre o sofrimento e a tristeza, há a insistência na memória, o poeta pede à amada que se lembre sempre dele. É um amor puro, ardente, que faz o fogo frio, há uma força omnipotente do amor. O amor é uma força superior a todas as outras.

Transforma-se o amador na cousa amada

O conceito do amor é platónico. A plenitude é a contemplação da beleza e o veículo para atingir esse nirvana é precisamente o amor, que necessita de um exercício de perfeição. Isso implica uma certa mortificação do corpo. Concebe-se o ser humano como alma e corpo. É a ideia tradicional de que o corpo é da matéria dos sentidos, para nos elevarmos é necessário que consigamos domesticar o corpo. Platão concebe o amor como uma libertação do fisíco. Temos que nos libertar das contingências do corpo que nos podem impedir de ser espírito. Só ao aperfeiçoarmo-nos é que podemos então dominar o corpo, compreendê-lo e reintegrá-lo finalmente. O sujeito transforma-se no ideal. Se a alma está transformada na amada, o que é que o corpo pretende? Pode descansar pois só à alma está ligado. A ideia está no pensamento. Já não é só o amor espiritual. Já não o satisfaz a pura semideia mas busca a posse física. A contradição dele é sentida pelo leitor. Ele não consegue libertar-se inteiramente daquela carne esmagadora.

O cisne quando sente ser chegada

Comparação entre o cisne e o poeta, o canto do cisne e o canto do poeta. A morte, a solidão, o desejo: "levanta pela praia inabitada". O deserto como espaço de purificação. O poeta está só em relação ao mundo. O poeta despede-se dos amores e dos favores passados da amada, a falsa fé da amada. Há a separação e o abandono da amada. O canto do poeta será o canto do cisne. Será o mais suave e o mais harmonioso. Cantará com mais harmonia. Só quando a amada se afasta dele e quando ele pode recordar pela memória o amor passado é que o amor será mais harmonioso. O cisne é símbolo de pureza e é também mediador entre a terra e o céu. O canto do poeta permite essa mediação entre os dois mundos. O cisne é o símbolo da poesia. É o poeta que pode conseguir chegar à perfeição, o verdadeiro herói é o poeta.

Já a roxa manhã clara

Há mais uma como que fusão entre tudo, o amor cósmico. O poeta evoca a amada quando o dia nasce "Já a roxa manhã clara… abrindo". a noite, luz, claridade, alegria, luminosidade. O canto dos pássaros que é também o do poeta manifesta o claro dia. O verde, sempre as mesmas imagens. A amora representa a formusura. a luz da alvorada mostra-lhe a amada e os cabelos de ouro. O orvalho das flores é as lágrimas do poeta. Este mundo é uma prisão e é necessária a libertação da materialidade para a libertação da alma. O afastamento da amada tirou-lhe a vontade de viver. O poeta já não tem nada de seu, vai morrer em vida. Vai morrer de amor pelo afastamento da amada.

Manda-me amor que cante docemente

Vai cantar a beleza da amada. Ele tem a necessidade de desabafar, servir-se-ia da pena como desabafo e escureceria o engenho só com a pena. Translado para um processo que foge um pouco à sua razão. Acaba por transladar a beleza essencial. Ele viveu durante algum tempo sem conhecer o amor. "No touro entrava Febo" ª na Primavera. É com a Primavera que desperta o amor. O poeta passa a vê-lo nas coisas insensíveis. Toda a gente se espanta dele e o poeta de si próprio, por estar apaixonado. Por efeito do amor a natureza animiza-se e o poeta contempla-a de forma diferente. Ao conhecer-se a si próprio viu que era ignorante. Só teve acesso à sabedoria porque se apaixonou. A natureza ao ganhar vida torna-se humana e o poeta torna-se natureza. A Natureza serve-se do amor para conquistar vida.

Quando o sol encoberto vai mostrando

Divisão do Texto em Partes

Tema

Ausência; Separação da Amada; Saudade.

Caracterização da Amada

"os cabelos concertando; face tão fermosa; falando alegre, cuidosa; queda, andando, sentada, me viu, olhos tão isentos; Comovida, segura; entristeceu, riu."

Recursos Estilísticos

Descalça vai para a fonte

Tema

Exaltação da beleza de Lianor.

Cenário

Fonte (como nas Cantigas de Amigo, a fonte tem muita importância).

Caracterização

Recursos estilísticos empregues na caracterização

Significado do verso "Vai fermosa e não segura" - por ser formosa pode ser assaltada pelo amor e quanto mais formosa mais exposta está aos perigos do amor.

Vilancete: composto a partir de um mote curto (dois/três versos) tradicional, geralmente alheio. As glosas formam a segunda parte e são constituídas por uma quadra e uma cauda de três versos. O último verso da quadra rima com o primeiro da cauda, fazendo assim a ligação entre ambas. Os dois últimos versos da cauda rimam com os dois últimos do mote. Os versos têm sete ou (mais raramente) cinco sílabas.

Rima: ABB / CDDCCBB / EFFEEBB; Redondilha maior (7 sílabas).

"Endechas a Bárbara escrava" e "Um mover d'olhos brando e piadoso"

"Endechas a Bárbara escrava" Um mover d'olhos brando…
Tema a beleza da amada a beleza da amada
Qualidades físicas da amada bela "rosa", formosa "fermosa", rosto "singular", olhos "sossegados, pretos e cansados" com "graça viva", cabelos "pretos", negra "pretidão de amor", figura "doce", presença "serena". "mover d'olhos brando e piadoso", "riso brando e honesto", "ar sereno".
Qualidades psicológicas da amada Sossegada "olhos sossegados", doce "doce a figura", alegre e meiga "leda mansidão", ajuizada "o siso acompanha", "Presença serena" branda e piedosa, honesta, doce, alegre sem exagero, maneira de estar serena, bondosa, alma pura, ousada com medida, sofredora.
Classe social da amada Escrava "Aquela cativa", "para ser senhora/de quem é cativa" Senhora "celeste fermosura"
Justificação de expressões Esta é a cativa que me tem cativo

Ela é escrava do sujeito poético mas sujeita-o como seu vassalo pois conseguiu que ele a amasse, ficou cativo dela pelo amor
celeste fermosura da minha Circe

a sua beleza é celestial, divina mas também diabólica pois conseguiu prendê-lo irremediavelmente.
Recursos estilísticos utilizados no retrato Trocadilho: "Cativa/cativo; vivo/viva";
Hipérbole: "Eu nunca… fermosa", "Nem no campo… amores", "que a neve… de cor", "presença… amansa";
Adjectivação; em todo o poema;
Enumeração: "Eu nunca… matar";
Personificação: "a neve lhe jura";
Antítese: "Presença… amansa"
Adjectivação: simples, dupla e tripla: em todo o poema;
Antítese: "celeste fermosura"; "mágico veneno"
Tipo de composição Endechas - tema fúnebre (não na L.P.), quadras (ou oitavas) em versos de redondilha menor (5). Cada quadra se chama endecha.
Rima: ABCB, ABAB ou ABBA.
Soneto. ABBA, ABBA, CDE, CDE, emparelhada e interpolada.

Amor é fogo que arde sem se ver

Definição do Amor

Amor é:

um fogo que arde sem se ver
ferida que dói e não se sente
um contentamento descontente
dor que desatina sem doer
um não querer mais que bem querer
um andar solitário entre a gente
um nunca contentar-se de contente
cuidar que se ganha em se perder
querer estar preso por vontade
servir a quem vence o vencedor
ter com quem nos mata lealdade

Síntese - natureza contraditória do Amor

"Tão contrário a si é o mesmo amor?"